CENA 7. INTERIOR — BORDEL DA LUZ VERMELHA — QUARTO DE ROSA — NOITE ROSA está diante do espelho, vestindo um roupão simples. O brilho de seus olhos denuncia o cansaço emocional dos últimos dias. A porta do quarto se abre lentamente. DONA CANDINHA entra e fecha a porta.
DONA CANDINHA: — Posso entrar ou vou ter que pedir licença? Pelo visto você está bastante distante daqui. ROSAn(esboçando um sorriso fraco): — A senhora nunca precisou pedir licença. A senhora sabe disso.
DONA CANDINHA se aproxima e observa Rosa com atenção. Ela e ROSA ficam se encarando em silêncio.
DONA CANDINHA: — E então... como é que você tá? ROSA: — Já estive melhor. DONA CANDINHA: — Eu soube do escândalo. ROSA: — A cidade inteira soube. DONA CANDINHA: — Pois eu vou te dizer uma coisa. Zeca Batista jamais seria capaz de fazer uma sujeira dessas. Eu conheço aquele homem há muitos anos.
ROSA baixa os olhos, envergonhada.
ROSA: — Eu sei. Agora eu sei. Mas por algumas horas... eu duvidei dele. Eu não deveria ter feito isso. DONA CANDINHA: — O medo faz isso com a gente. ROSA: — Fez comigo. Eu olhei aquelas fotos e deixei a raiva falar mais alto. Principalmente quando vi a Nina. DONA CANDINHA: — E o coração? ROSA: — O coração nunca acreditou.
DONA CANDINHA acaricia o rosto de ROSA com ternura. Ela olha ROSA de um jeito bem fraternal.
DONA CANDINHA: — Ainda bem. ROSA: — Nina foi longe demais dessa vez. DONA CANDINHA: — Longe demais mesmo. E eu já decidi. Vou expulsar aquela cobra daqui. Eu já decidi. ROSA: — Não!
DONA CANDINHA estranha a reação de ROSA.
DONA CANDINHA: — Como é? Eu ouvi direito? ROSA: — Pelo menos por enquanto, não. DONA CANDINHA: — Você enlouqueceu, Rosa? ROSA: — Eu preciso descobrir quem tá por trás disso tudo. Eu quero saber de quem veio a ordem para fazer isso com o Zeca. A Nina não planejaria isso sozinha. DONA CANDINHA: — E você acha que tem mais alguém envolvido? Isso é algo bastante sério, Rosa. ROSA: — Tenho certeza. DONA CANDINHA: — Por quê? ROSA: — Porque Nina é cruel... mas ela nunca foi inteligente o suficiente pra montar uma armadilha desse tamanho. E convenhamos ela é bastante limitada.
DONA CANDINHA fica pensativa.
DONA CANDINHA: — Você acha que tem gente poderosa nessa história? Eu te conheço bem, Rosa. ROSA: — Acho. Na verdade eu tenho certeza. DONA CANDINHA: — Então tome cuidado. ROSA: — Eu vou tomar. DONA CANDINHA: — Tem gente nessa cidade que sorri de dia e destrói vidas durante a noite. Você sabe quem. ROSA: — Eu sei. Mas não posso deixar o nome do Zeca ser destruído desse jeito. A verdade precisa aparecer. DONA CANDINHA: — Isso que eu admiro em você.
ROSA sorri de canto.
ROSA: — Pelo menos uma coisa boa aconteceu. DONA CANDINHA: — E o que foi? ROSA: — Eu dei um tapa bem dado na cara da Nina. DONA CANDINHA arregala os olhos e depois cai na gargalhada. Ela e ROSA se olham com cumplicidade.
DONA CANDINHA: — Você fez o quê? ROSA: — Foi exatamente isso que a senhora ouviu. DONA CANDINHA (rindo): — Ah, minha filha... esse tapa tava atrasado fazia tempos. Ela mereceu cada segundo. E como mereceu. Disso eu tenho certeza.
As duas compartilham um sorriso cúmplice.
DONA CANDINHA: — Mas não se engane. Nina é perigosa. Ela vai fazer de tudo para se vingar de você. ROSA: — Eu sei. E eu estou preparada. DONA CANDINHA: — Ela não tem nada a perder. ROSA: — Então ela encontrou alguém disposto a enfrentá-la. E eu não vou parar até saber a verdade.
DONA CANDINHA sorri orgulhosa.
DONA CANDINHA: — Agora sim eu tô vendo a Rosa que eu conheço. E eu admiro a sua coragem. ROSA: — E eu só tô começando.
DONA CANDINHA e ROSA trocam um olhar firme. Pela primeira vez desde o escândalo, Rosa parece determinada e pronta para a batalha que está por vir. 🌴
CENA 8. INTERIOR — RÁDIO “A VOZ DA TERRA” — CORREDOR — NOITE O corredor da rádio está silencioso. Zeca Batista sai do estúdio com os ombros pesados depois de mais um programa marcado pelo escândalo que tomou conta da cidade. Quando levanta os olhos, vê Aureliano Prado vindo em sua direção. Os dois homens param frente a frente. O silêncio que fica entre eles é ensurdecedor.
ZECA BATISTA: — Eu sabia que o senhor ia acabar aparecendo. Depois de todos esses escândalo. AURELIANO (evitando o olhar por um instante): — E-eu precisava conversar com você, Zeca. A cidade inteira tá falando desse escândalo. E você sabe disso. ZECA BATISTA: — E a cidade inteira já me condenou sem ouvir uma palavra da minha defesa. AURELIANO: — Você sabe como o povo é. Quando vê uma foto dessas… Eles só olham o que está na frente. ZECA BATISTA: — Eu sou inocente, prefeito. Tudo isso foi armado. Foi uma armadilha. E você sabe de quem.
AURELIANO encara ZECA BATISTA bem sério.
AURELIANO: — Você realmente acredita que o coronel Tenório está por trás disso? Isso seria possível? ZECA BATISTA: — Não acredito. Tenho certeza. AURELIANO: — Mas isso é uma acusação muito séria. ZECA BATISTA: — Mais séria é a vida de um homem ser destruída da noite pro dia. Mais séria é uma cidade inteira ser manipulada por medo. Você não acha?
AURELIANO observa ZECA BATISTA atentamente.
AURELIANO: — E-eu conheço você há muitos anos, Zeca. Nunca ouvi falar de uma atitude dessas vindo de você. Eu sabia que tinha algo errado nessa história. ZECA BATISTA: — Porque ela nunca existiu. AURELIANO: — Então me explica uma coisa... Como essa tal de Nina entrou nessa história? Eu quero saber. ZECA BATISTA: — É exatamente isso que eu preciso descobrir. É isso que não está se encaixando. AURELIANO: — Uma moça do Bordel da Luz Vermelha envolvida num escândalo político... isso não parece coincidência. Você tem que concordar comigo, Zeca. ZECA BATISTA: — Também não acho.
ZECA BATISTA fica bastante pensativo.
AURELIANO: — Você acha que ela fez isso por dinheiro? Ela faria isso só para sujar a sua imagem? ZECA BATISTA: — Talvez. Talvez por vingança. Talvez por alguém ter prometido algo em troca. Eu ainda não sei. Por isso que eu preciso descobrir a verdade. AURELIANO: — Mas você acredita que existe alguém por trás dela. Talvez o Tenório Ferreira Lemos. É isso? ZECA BATISTA: — Existe. E quando eu descobrir quem é, a verdade vai aparecer. Eu tenho certeza disso.
AURELIANO cruza os braços, preocupado.
AURELIANO: — Você tem ideia do tamanho da guerra em que está entrando? Isso não vai ter volta, Zeca. ZECA BATISTA: — Tenho. Pode acreditar nisso. AURELIANO: — Porque se o que você está dizendo for verdade... Tenório não vai parar por aqui. ZECA BATISTA: — Eu sei. AURELIANO: — Ele vai tentar destruir sua candidatura. Sua reputação. Sua vida. Ele é um homem perigoso.
AURELIANO fica bastante nervoso.
ZECA BATISTA: — Já começou a fazer isso. AURELIANO: — Então por que continuar?
ZECA BATISTA encara o prefeito com firmeza.
ZECA BATISTA: — Porque se eu desistir agora, ele vence. E eu não posso deixar isso acontecer jamais. AURELIANO: — E-eu admiro essa coragem. ZECA BATISTA: — Não é coragem, prefeito. É necessidade. Tanhanhem precisa de alguém assim. Alguém precisa enfrentar homens como Tenório Ferreira Lemos. Alguém precisa mostrar que Tanhanhem não pertence a uma única família. AURELIANO esboça um pequeno sorriso.
AURELIANO: — Você continua falando como um candidato. Como um homem que se recusa desistir. ZECA BATISTA: — Porque continuo acreditando no povo desta cidade. E isso é algo que jamais vai mudar. AURELIANO: — Mesmo depois de tudo que aconteceu hoje? Do povo duvidando da sua inocência, Zeca? ZECA BATISTA: — Mesmo depois de tudo. AURELIANO: — Eles te chamaram de hipócrita.
ZECA BATISTA fica ainda. Que determinado.
ZECA BATISTA: — Chamaram.bE ainda assim eu vou continuar lutando por eles. Sempre vai ser assim. AURELIANO: — Você é mais teimoso do que eu imaginava. O Tenório agora tem um rival a altura. ZECA BATISTA: — E o senhor é mais observador do que gosta de demonstrar. E isso é bastante inteligente.
Os dois sorriem discretamente.
AURELIANO: — Só tome cuidado. Porque eu conheço Tenório Ferreira Lemos. E quando ele se sente ameaçado... ele se torna ainda mais perigoso. ZECA BATISTA: — Então é melhor ele se acostumar. Porque eu não vou parar. Eu nunca vou desistir.
ZECA BATISTA estende a mão. AURELIANO aperta.
AURELIANO: — Boa sorte, Zeca.. ZECA BATISTA: — Não preciso de sorte. Preciso da verdade. Eu jamais vou desistir de Tanhanhem. Nunca.
AURELIANO' o observa partir pelo corredor. No rosto do prefeito há preocupação, mas também admiração. ZECA BATISTA segue caminhando sozinho enquanto a sombra da guerra contra TENÓRIO parece crescer cada vez mais sobre TANHANHEM. 🌴
CENA 5. INTERIOR — IGREJA DE TANHANHEM — NOITE ANOITECE. A igreja está silenciosa. A luz das velas ilumina suavemente o altar. PADRE BELARMINO acaba de sair do confessionário. Enquanto organiza alguns objetos litúrgicos, percebe duas figuras caminhando em sua direção. JERÔNIMO e LINDA FLOR. De mãos dadas. Os dois carregam um brilho impossível de esconder. O sacerdote sorri ao ver eles.
PADRE BELARMINO: — Ora, ora… Se eu não conhecesse vocês desde pequenos, diria que estão escondendo alguma coisa. Oi será que estão?
JERÔNIMO e LINDA FLOR trocam um olhar cúmplice.
LINDA FLOR: — Acho que estamos mesmo. JERÔNIMO: — Mas não por muito tempo. PADRE BELARMINO: — Então me contem. O que traz vocês à casa de Deus com essa felicidade que dá pra enxergar da porta da igreja? Podem me dizer?
LINDA FLOR aperta a mão de JERÔNIMO. Ele sorri.
JERÔNIMO: — Nós queremos nos casar.
O sorriso do padre aumenta imediatamente.
PADRE BELARMINO: — Graças a Deus! LINDA FLOR: — E viemos saber se existe alguma data disponível. Eu e Jerônimo não queremos esperar. PADRE BELARMINO: — Disponível existe. E eu posso dizer uma coisa? Será um enorme prazer celebrar esse casamento. Eu vi por tudo que vocês dois passaram.
LINDA FLOR se emociona. JERÔNIMO sorri.
LINDA FLOR: — Obrigada, padre. PADRE BELARMINO: — Eu estava começando a achar que vocês iam me deixar esperando para sempre.
Os três riem. Depois o sacerdote fica mais reflexivo.
PADRE BELARMINO: — Existe uma coisa que você merece saber, Jerônimo. Algo que nunca disse a você. JERÔNIMO: — O que foi? PADRE BELARMINO: — Depois daquele incêndio... Quando você deixou Tanhanhem… Fui eu quem enterrou seu pai. Não poderia deixar ele daquele jeito.
Silêncio. JERÔNIMO absorve aquelas palavras. PADRE BELARMINO: — Xavier descansa nas terras onde ficava a antiga casa de vocês. Que hoje infelizmente pertence as terras do coronel Tenório. E você sabe. LINDA FLOR: — Jerônimo... JERÔNIMO: — Obrigado, padre. Obrigado por não deixar meu pai ser esquecido. Isso foi muito gentil. PADRE BELARMINO: — Homens como Xavier não são esquecidos. São homens que morreram fazendo o certo.
JERÔNIMO abaixa a cabeça por um instante. Em sinal de respeito. Depois volta a olhar para LINDA FLOR.
JERÔNIMO: — Agora tudo o que eu mais quero...É construir uma vida ao lado da Linda Flor. LINDA FLOR: — E eu ao lado dele.
PADRE BELARMINO observa os dois. Emocionado.
PADRE BELARMINO: — Vocês sabem de uma coisa? Desde crianças eu tinha certeza que isso aconteceria. Jerônimo e Linda Flor sorriem. Vocês nasceram um para o outro. A vida tentou separar vocês. Vieram a distância… A dor… As mentiras… Mas o amor verdadeiro sabe esperar. E isso é o que importa.
LINDA FLOR se emociona.
LINDA FLOR: — Eu nunca consegui esquecer dele. JERÔNIMO: — Nem eu dela. O sacerdote sorri. Mas logo fica sério.
PADRE BELARMINO: — Só peço uma coisa. Tomem cuidado. Maria do Céu está cada vez mais consumida pela própria obsessão. Ela acha que te ama Jerônimo.
LINDA FLOR troca um olhar com JERÔNIMO.
LINDA FLOR: — A gente sabe, Padre Belarmino. PADRE BELARMINO: — E pessoas assim podem acabar fazendo coisas terríveis. E a Maria do Céu não é diferente. Ela está cada vez mais perdida nessa obsessão.
JERÔNIMO concorda.
JERÔNIMO: — Nós estamos atentos. LINDA FLOR: — E eu não vou permitir que Maria do Céu continue controlando nossas vidas. Ela já causou sofrimento demais. E isso não vai mais acontecer.
PADRE BELARMINO assente. Satisfeito.
PADRE BELARMINO: — Essa é a atitude certa.
Ele coloca uma mão sobre o ombro de JERÔNIMO. Outra sobre o de Linda Flor. Ele os encara.
PADRE BELARMINO: — Vocês ainda enfrentarão dificuldades. Mas também terão muitas alegrias. Porque Deus não abandona quem ama de verdade.
JERÔNIMO e LINDA FLOR se olham. Apaixonados. Como se o resto do mundo deixasse de existir. PADRE BELARMINO abre os braços. Faz o sinal da cruz sobre os dois. Eles fecham os olhos.
PADRE BELARMINO: — Que Deus abençoe essa união. Que Ele proteja o amor de vocês. E que nunca permita que a maldade seja maior que a esperança. JERÔNIMO: — Amém. LINDA FLOR: — Amém.
Os dois abrem os olhos e sorriem. De mãos dadas. Enquanto os sinos da igreja começam a tocar ao longe. A câmera se afasta lentamente. Mostrando os três diante do altar. Como se aquele momento estivesse sendo testemunhado pelo próprio destino. 🌴
CENA 6. INTERIOR — SALÃO DE BELEZA DE FILÓ — NOITE O salão já está praticamente vazio. FILÓ guarda alguns produtos enquanto se prepara para fechar as portas. O sino da entrada toca. A porta se abre com força. CONSTÂNCIA entra usando um vestido elegante e carregando toda sua costumeira dramaticidade.
FILÓ: — Olha só quem resolveu aparecer. CONSTÂNCIA: — Nem começa, Filó. FILÓ: — Eu só tô achando curioso. Da última vez que saiu daqui, você jurou que nunca mais pisaria no meu salão. Mas eu sabia que você acabaria voltando. CONSTÂNCIA: — Isso é passado. Eu vim porque preciso da sua ajuda. Você é a única pessoa que eu confio. FILÓ (prendendo o riso): — E eu fico preocupada sempre que você fala isso. O que aconteceu agora?
CONSTÂNCIA suspira de forma teatral.
CONSTÂNCIA: — É a Beatriz. Ela enlouqueceu completamente! Aquele menino está bem difícil. FILÓ: — Ouvi dizer que saiu de casa. CONSTÂNCIA: — E tudo por culpa daquela gentinha biscoiteira! Mas dessa vez ela foi longe demais, Filó. FILÓ: — João Miguel? CONSTÂNCIA: — Quem mais seria?
FILÓ fecha lentamente uma gaveta.
FILÓ: — Constância... você continua chamando o rapaz desse jeito? Você realmente nu cá vai mudar mesmo. CONSTÂNCIA: — E como eu deveria chamar? FILÓ: — Pelo nome dele seria um bom começo. CONSTÂNCIA: — Eu não acredito que você também vai ficar do lado dele! Você deveria ficar do meu lado. FILÓ: — Eu tô do lado da sua filha.
CONSTÂNCIA revira os olhos.
CONSTÂNCIA: — Minha filha abandonou uma vida de privilégios! Os melhores vestidos! Os melhores bailes! As melhores companhias! Isso é inadmissível, Filó. FILÓ: — E escolheu ficar perto de quem ama. CONSTÂNCIA: — Isso não é amor! FILÓ: — E quem decidiu isso? CONSTÂNCIA: — Eu sou a mãe dela! FILÓ: — Pois é justamente por isso que devia escutá-la.
CONSTÂNCIA começa a andar pelo salão nervosamente.
CONSTÂNCIA: — Você não entende. A Beatriz nasceu para frequentar a alta sociedade. Ser admirada. Vista. FILÓ: — Acho que a Beatriz nasceu para ser feliz.
CONSTÂNCIA para abruptamente.
CONSTÂNCIA: — Eu vim aqui pedir ajuda! FILÓ: — E eu tô ajudando. CONSTÂNCIA: — Não, não está! FILÓ: — Estou dizendo a verdade que ninguém tem coragem de dizer. E no fundo você sabe a verdade.
CONSTÂNCIA cruza os braços.
CONSTÂNCIA: — Então diga. Agora eu quero ouvir. FILÓ: — Você tá empurrando sua filha para longe. CONSTÂNCIA: — Isso é um absurdo. Tudo isso só aconteceu porque aquele biscoiteiro apareceu na vida dela. Mas ninguém consegue entender justamente isso. FILÓ: — Não. Isso aconteceu porque você decidiu controlar a vida dela. O seu orgulho não deixa você ver. CONSTÂNCIA: — Eu só quero o melhor para minha filha! E aquele feirante não é o melhor para ela. FILÓ: — O melhor segundo quem?
CONSTÂNCIA fica sem resposta por um instante.
FILÓ: — Você acha que riqueza compra felicidade. CONSTÂNCIA: — E não compra conforto? FILÓ: — Conforto sim. Amor não.
CONSTÂNCIA aperta a bolsa com força.
CONSTÂNCIA: — Então você não vai me ajudar? FILÓ: — A separar os dois? Não. CONSTÂNCIA: — Filó! Você não pode estar falando sério. A Beatriz merece coisa melhor que aquilo. FILÓ: — Beatriz e João Miguel se amam. CONSTÂNCIA: — Eu não aceito isso! FILÓ: — Aceitar ou não aceitar não muda a realidade. CONSTÂNCIA: — Você está contra mim. FILÓ: — Pela primeira vez na vida, eu tô tentando abrir seus olhos. E você não consegue perceber a verdade.
CONSTÂNCIA respira fundo, já à beira de outro escândalo. FILÓ olha para sua amiga bem mais séria.
CONSTÂNCIA: — Pois eu vou acabar com esse namoro! FILÓ: — E depois? O que é que vai acontecer? CONSTÂNCIA: — Depois minha filha vai voltar para casa. E ela nunca mais vai ver aquela feirante biscoiteiro. FILÓ: — Ou talvez nunca mais volte.
CONSTÂNCIA fica atingida pela frase, mas logo recompõe a pose. Ela e FILÓ ficam se encarando.
CONSTÂNCIA: — Isso não vai acontecer. FILÓ: — Tomara. Para o seu próprio bem, Constância. CONSTÂNCIA: — Eu sou Constância Junqueira Prado! FILÓ (rindo): — Isso eu sei. A cidade inteira sabe. CONSTÂNCIA: — E ninguém desafia uma Junqueira Prado! Principalmente por eu ser a primeira dama. FILÓ: — Parece que a Beatriz tá desafiando.
CONSTÂNCIA fica vermelha de raiva.
CONSTÂNCIA: — Você vai ver! Eu vou acabar com esse namoro! E a minha filha ainda vai me agradecer. FILÓ: — E eu vou continuar torcendo por eles. CONSTÂNCIA (indignada): — Boa noite, Filó! FILÓ: — Boa sorte, Constância.
A primeira-dama sai batendo a porta do salão. FILÓ observa a amiga desaparecer rua afora. Então balança a cabeça e sorri d eum jeito bem divertido.
FILÓ: — Pra quem quer controlar a vida dos outros... essa mulher não consegue controlar nem o próprio gênio. E isso ainda vai muito longe. Eu aposto.
CENA 3. INTERIOR — ANTIGA MERCENÁRIA DE TANHANHEM — FIM DE TARDE O sol desaparece lentamente no horizonte. ZÉ BENTO empurra as antigas portas de madeira da mercearia. Uma nuvem de poeira toma conta do ambiente. Ele tosse levemente. Observa o local abandonado. Os olhos brilham de esperança. Ele respira fundo.
ZÉ BENTO: — É... tá caído. (pausa) Mas ainda tem jeito.
ZÉ BENTO caminha pelo interior do imóvel. Passa a mão sobre um balcão antigo. Sorri discretamente. Nesse momento, uma voz conhecida surge atrás dele.
CARLOTA: — Sempre tão sonhador.
ZÉ BENTO se vira. CARLOTA está parada na entrada. Elegante. Impecável. Passando o dedo pelo batente coberto de poeira. Ela e ZÉ BENTO se encaram.
ZÉ BENTO: —;O que você tá fazendo aqui, Carlota?
CARLOTA observa a sujeira em seu dedo com desprezo.
CARLOTA: — Você realmente acreditou que conseguiria dar um passo nessa cidade sem que eu soubesse? ZÉ BENTO: — Minha vida não é da sua conta. CARLOTA: — Engraçado. Porque parece que ela sempre acaba sendo. Você nunca vai se livrar de mim, Zé Bento.
Ela entra na mercearia. Observando tudo ao redor. CARLOTA: — Então é aqui que você pretende recomeçar? Olha só a sujeira desse lugar imundo. ZÉ BENTO: — Pretendo. Mas eu não t3 devo satisfação. CARLOTA: — Que comovente.
ZÉ BENTO fecha a expressão.
ZÉ BENTO: — Vá direto ao assunto.
CARLOTA para diante dele.
CARLOTA: — Já sei da Helena. ZÉ BENTO: — E daí? O que você tem haver com isso? CARLOTA: — E daí que eu não gostei. Seu estúpido. ZÉ BENTO: — Isso é problema seu. CARLOTA: — Você beijou ela. ZÉ BENTO: — Beijei. E isso não é da sua conta.
CARLOTA sente o golpe. Mas tenta esconder.
CARLOTA: — Depois de tudo... ZÉ BENTO: — Depois de tudo o quê?
Ela se aproxima. Os olhos começam a marejar de raiva.
CARLOTA: — É a segunda vez. ZÉ BENTO: — Segunda vez o quê? CARLOTA: — Que você me troca. Primeiro foi Maria das Dores. Agora é Helena. Por que é tão difícil me amar? ZÉ BENTO a encara. Sem pena. Sem medo.
ZÉ BENTO: — Porque amor não nasce da força.
CARLOTA engole seco.
ZÉ BENTO: — Você destruiu minha vida. CARLOTA: —Eu te amava! ZÉ BENTO: — Você ajudou a destruir Maria das Dores. CARLOTA: — Não! Não foi bem assim, Zé Bento. ZÉ BENTO: — Você e Tenório roubaram minha filha. CARLOTA: — Linda Flor teve uma vida melhor! ZÉ BENTO: — Mentira!
A voz dele ecoa pela mercearia vazia.
ZÉ BENTO: — Vocês me prenderam quinze anos por um crime que eu não cometi! Ou você já esqueceu?
CARLOTA permanece imóvel.
ZÉ BENTO: — E nós sabemos quem matou o Xavier.
O olhar de CARLOTA vacila. Por apenas um segundo.
ZÉ BENTO (firme): — Tenório.
Silêncio. Pesado. Incômodo.
CARLOTA: — Eu fiz tudo isso por amor. ZÉ BENTO (rindo): — Isso não é amor. CARLOTA: — É sim! ZÉ BENTO: — Não. Isso é obsessão. É doença.
CARLOTA sente a palavra como uma facada.
CARLOTA: — Você não sabe o que está dizendo. ZÉ BENTO: — Sei perfeitamente. CARLOTA: — Eu sempre lutei por você. ZÉ BENTO: — E destruiu tudo o que encontrou pela frente. Se isso for amor eu não quero isso.
CARLOTA se aproxima ainda mais.
CARLOTA: — E essa Helena? Você acha que ela é melhor do que eu? Isso não pode ser verdade, Zé Bento. ZÉ BENTO: — Muito melhor.
A resposta vem imediata. CARLOTA fica paralisada.
ZÉ BENTO: — Helena tem algo que você nunca teve. CARLOTA: — E o que seria? ZÉ BENTO: — Coração.
A vilã fecha os punhos contendo a sua raiva.
ZÉ BENTO: — Ela não precisa destruir ninguém pra ser feliz. E eu me apaixonei de verdade por ela. CARLOTA: — Cale a boca! ZÉ BENTO: — Não. Você não chega aos pés dela.
CARLOTA está consumida pelo ódio.
CARLOTA: — Você vai se arrepender dessas palavras. ZÉ BENTO: — Não me arrependo da verdade. CARLOTA: — Então escute bem. Eu não vou deixar você ser feliz com a Helena. Aquela escola não vai sair do papel. E esse armazém… Nunca vai significar nada para Tanhanhem. Você está me ouvindo, Zé Bento?
ZÉ BENTO sustenta seu olhar.
ZÉ BENTO: — Nada que venha de você merece ser levado a sério. E eu não tenho medo de você, Carlota.
CARLOTA fica sem palavras. A raiva faz ela tremer.
CARLOTA: — Você ainda vai implorar pelo meu perdão. ZÉ BENTO: — Antes eu morro.
Os olhos dos dois se cruzam. Uma guerra antiga. Mal resolvida. CARLOTA se vira. Ela encara ZÉ BENTO.
CARLOTA: — Isso não acabou. ZÉ BENTO: — Pra mim acabou há muitos anos.
CARLOTA vai embora. A porta bate. O silêncio toma conta da mercearia. ZÉ BENTO permanece sozinho. Respira fundo. Leva a mão ao peito. Retira a medalha. A foto de MARIA DAS DORES e da pequena LINDA FLOR. Ele sorri emocionado. O silêncio é confortável.
ZÉ BENTO: — Tá vendo, Maria? Eu quase desisti. Mas não vou mais deixar ninguém decidir minha vida.
Olha ao redor. Para as paredes velhas. Para o balcão abandonado. Para o futuro. Ele sente muita esperança.
ZÉ BENTO: — Esse armazém vai abrir. A escola vai acontecer. E eu vou recuperar tudo que me foi tirado.
Uma lágrima escorre. Mas agora existe esperança em seu olhar. Os olhos de ZÉ BENTO ficam marejados.
ZÉ BENTO: — Nem que seja a última coisa que eu faça.
A câmera se afasta lentamente. Mostrando o homem sozinho dentro da velha mercearia. E, pela primeira vez em muitos anos, pronto para recomeçar. 🌴
CENA 4. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO E SALUSTIANA — SALA — FIM DE TARDE MACÁRIO está sentado no sofá da sala. Os hematomas da surra ainda marcam seu rosto. Ele permanece perdido em pensamentos. A lembrança da humilhação sofrida nas mãos dos homens de TENÓRIO ainda dói mais que os ferimentos. Uma batida na porta. MACÁRIO ergue o olhar. Com esforço, se levanta. Vai até a porta. Abre. Do lado de fora está EZEQUIEL. Os dois se encaram em silêncio. MACÁRIO o analisa por alguns instantes. Depois abre espaço.
MACÁRIO: — Entra. EZEQUIEL: — Obrigado, seu Macário.
EZEQUIEL entra. Os dois seguem até a sala. EZEQUIEL senta-se. MACÁRIO permanece alguns segundos de pé observando o rapaz. Depois senta-se diante dele.
MACÁRIO: —Você é o rapaz que anda com a minha Luzia? A fofoca do povo corre por toda a cidade. EZEQUIEL: — Sou, sim senhor. MACÁRIO: — Então é você o namorado dela. EZEQUIEL: — Sou. Antes de qualquer coisa... eu acho que o senhor merece saber quem eu sou.
MACÁRIO permanece atento.
EZEQUIEL: — Eu sou filho de Dona Candinha. Dona do Bordel da Luz Vermelha. E eu sei que isso pode ser difícil de aceitar. Justamente porque o povo fala demais.
Nesse momento, LUZIA surge no corredor. Ela ouviu parte da conversa. O nervosismo é evidente.
LUZIA: — Pai…
MACÁRIO olha para a filha. Depois volta o olhar para EZEQUIEL. O silêncio parece durar uma eternidade. Até que… MACÁRIO sorri. Um sorriso sincero. Surpreendendo os dois. LUZIA e EZEQUIEL se olham.
MACÁRIO: — Difícil de aceitar?
EZEQUIEL e LUZIA se encaram. Confusos.
MACÁRIO: — Eu sei muito bem quem é Dona Candinha. EZEQUIEL (surpreso): — Sabe? MACÁRIO: — Sei. E posso te dizer uma coisa. Ela é uma das mulheres mais generosas que já passaram por essa cidade. E ela tem todo o meu respeito. Pode acreditar.
EZEQUIEL solta o ar que estava prendendo. Aliviado.
EZEQUIEL: — O senhor não imagina o quanto eu fico feliz de ouvir isso. O senhor tirou esse peso de mim. LUZIA: — Eu estava com medo da sua reação. MACÁRIO: — Da minha reação? LUZIA: — Eu sempre vi o senhor como um homem sério. Achei que talvez o preconceito de Tanhanhem tivesse influenciado o senhor de alguma forma. MACÁRIO se levanta devagar. Vai até a filha. Segura suas mãos com carinho. Olha profundamente para ela. Ele e LUZIA ficam se olhando intensamente.
MACÁRIO: — Minha filha… Eu jamais permitiria que o preconceito dessa cidade decidisse alguma coisa dentro do meu coração. Eu nunca vou deixar isso acontecer.
Os olhos de LUZIA ficam marejados.
MACÁRIO: — Muito menos a sua felicidade. LUZIA: — Pai... MACÁRIO: — A vida já machuca demais a gente. Não vou ser eu quem vai aumentar essa dor.
LUZIA sorri emocionada. Uma lágrima escorre. MACÁRIO enxuga delicadamente o rosto da filha. Depois olha para EZEQUIEL. O clima fica leve.
MACÁRIO: Agora tem uma coisa que eu preciso dizer a você. E espero que você possa me entender, rapaz. EZEQUIEL (atento): — Pode falar, seu Macário. MACÁRIO: — A única coisa que eu quero...é que você faça minha filha feliz. Isso já é o suficiente.
EZEQUIEL se levanta imediatamente. Os olhos sinceros.
EZEQUIEL: — Seu Macário… Eu jamais faria alguma coisa para magoar Luzia. Eu gosto dela de verdade. E vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra cuidar dela. Você pode confiar em mim, seu Macário.
MACÁRIO estende a mão. EZEQUIEL a aperta.
MACÁRIO: — É bom mesmo.
MACÁRIO dá uma piscadela.
MACÁRIO: —Porque se fizer minha filha sofrer....aí nós vamos ter uma conversa bem diferente. Entendido?
LUZIA ri. EZEQUIEL também.
EZEQUIEL: — Justo. LUZIA: — Vocês dois são impossíveis.
O clima finalmente se torna leve. LUZIA abraça o pai. MACÁRIO retribui. Mesmo sentindo dor por causa dos machucados. Ele fecha os olhos por um instante. Emocionado. Depois observa LUZIA e EZEQUIEL juntos. Os dois jovens sorrindo. Cheios de esperança. Macário sorri discretamente e ele respira fundo.
MACÁRIO: — Talvez ainda exista jeito pra esse mundo. LUZIA: — Existe sim, pai. EZEQUIEL: — Enquanto existir gente boa... sempre vai existir. E a justiça divina pode demorar, mas ela chega.
MACÁRIO assente. Pela primeira vez desde a injustiça que sofreu, um pouco de paz encontra espaço em seu coração. A câmera se afasta lentamente dos três reunidos na sala. Um raro momento de felicidade em Tanhanhem. 🌴
CENA 1. EXTERIOR — ARREDORES DA FAZENDA FERREIRA LEMOS — ESTRADA DE TERRA — DIA Continuação imediata do capítulo anterior. A câmera permanece fechada no rosto de MARIA DO CÉU. O sorriso discreto desaparece aos poucos. Ela encara PEDRO com os olhos cheios de conflito.
MARIA DO CÉU: — Não... PEDRO: — Não o quê? MARIA DO CÉU: — Isso é loucura. PEDRO: — Loucura é continuar acreditando que Jerônimo vai abandonar Linda Flor sozinho.
MARIA DO CÉU abaixa o olhar.
PEDRO: — Você já tentou de tudo. Mentiras. Armações. Intrigas. E nada funcionou. Você precisa ser inteligente.
MARIA DO CÉU fica bastante pensativa.
MARIA DO CÉU: — Porque aquela maldita sempre consegue escapar. A Linda FLOR sempre consegue tudo o que ela quer. E eu estou cansada disso acontecer. PEDRO: — Então chegou a hora de fazer diferente.
PEDRO caminha lentamente ao redor dela. Como um predador estudando sua presa. A vilã o encara.
PEDRO: — Você quer o Jerônimo? MARIA DO CÉU: — Mais do que qualquer coisa. PEDRO: — Então vai ter que parar de agir como uma apaixonada. E começar a agir como uma vencedora.
Os olhos de MARIA DO CÉU brilham.
MARIA DO CÉU: — E se der errado? PEDRO: — Aí você perde Jerônimo para sempre.
A frase atinge a vilã como uma facada.
MARIA DO CÉU: — Não… Eu não vou perder. PEDRO: — Então escolha.
O silêncio domina a estrada. MARIA DO CÉU respira fundo. O rosto endurece. Ela e PEDRO se olham.
MARIA DO CÉU: — O que você precisa de mim? PEDRO (sorrindo): — Agora estamos conversando. MARIA DO CÉU: — Eu quero detalhes. PEDRO olha ao redor para se certificar de que estão sozinhos. Depois se aproxima. A vilã o encara.
PEDRO: — Primeiro vamos fazer a cidade inteira duvidar de Linda Flor. Fazer todos duvidarem dela. MARIA DO CÉU: — Como? PEDRO: — Uma mentira só funciona quando as pessoas querem acreditar nela. E o povo de Tanhanhem adora um escândalo. E será aí que vamos acabar com ela.. MARIA DO CÉU: — Você quer destruir a reputação dela. PEDRO: — Exatamente. MARIA DO CÉU: — E depois? O que vai acontecer?
PEDRO sorri friamente.
PEDRO: — Depois a gente destrói o casamento.
MARIA DO CÉU fica em silêncio. Pensativa. Perigosa.
MARIA DO CÉU: — Jerônimo vai sofrer. PEDRO: — Desde quando isso te preocupa? Você não quer a felicidade dele. Você quer possuir ele.
MARIA DO CÉU lança um olhar mortal.
MARIA DO CÉU: — Cuidado, Pedro. PEDRO: — Estou mentindo?
A vilã não consegue responder. O silêncio fala por ela. PEDRO monta novamente em seu cavalo.
PEDRO: — Pense no que eu disse. MARIA DO CÉU: — E se eu aceitar? PEDRO: — Então Linda Flor vai descobrir que a verdadeira guerra ainda nem começou.
PEDRO puxa as rédeas. O cavalo começa a se afastar.
PEDRO: — E não esqueça da minha condição. MARIA DO CÉU: — Eu não prometi nada. PEDRO: — Mas vai pensar. E sei que vai aceitar.
PEDRO cavalga pela estrada deserta. MARIA DO Céu permanece sozinha. O sol ilumina seu rosto. Ela leva a mão ao peito tentando controlar a respiração.
MARIA DO CÉU (para si mesma): — Perdoe-me, Jerônimo... Se eu não puder ser feliz… Linda Flor também não vai ser. Eu quero você só mim.
MARIA DO CÉU esboça um sorriso maléfico. A câmera sobe lentamente para o céu iluminado pelo sol. 🌴
CENA 2. INTERIOR — PEQUENO HOTEL DE TANHANHEM — QUARTO DE HELENA — DIA HELENA está sentada à pequena mesa do quarto. Sobre ela, o documento oficial que autoriza a criação da escola. Ela passa os olhos pelo papel com um sorriso discreto.
HELENA: — Finalmente…
Uma batida forte na porta. HELENA se assusta. Outra batida. Ela fecha o documento rapidamente. Levanta-se. Vai até a porta. Abre. Seu sorriso desaparece. TENÓRIO está parado diante dela. Imponente. Frio. A mão repousando sobre o chicote preso à cintura. HELENA fica imóvel. Ela e TENÓRIO ficam se encarando.
HELENA: — Tenório…
Sem pedir licença, o coronel entra.HELENA fecha a porta lentamente. Os dois ficam frente a frente.
HELENA: — O que você pensa que está fazendo aqui? TENÓRIO: — Soube que você conseguiu o documento. HELENA: — A notícia corre rápido em Tanhanhem. TENÓRIO: — Principalmente quando envolve alguém querendo desafiar os Ferreira Lemos. Isso é inaceitável.
HELENA cruza os braços. Olha TENÓRIO bem séria.
HELENA: — Então foi por isso que veio? TENÓRIO: — Vim evitar um problema.
HELENA dá uma risada curta.
HELENA: — Que generoso. TENÓRIO: — Essa escola não vai acontecer. HELENA: — Vai sim, Tenório. E você não vai impedir. TENÓRIO: — Não vai. É melhor você não me desafiar.
Os dois se encaram. Nenhum disposto a recuar.
TENÓRIO: — Carlota me contou sobre o documento. HELENA (sorrindo): — Eu imaginava. TENÓRIO: — Por isso estou aqui. HELENA: — Para me ameaçar? TENÓRIO: — Para lhe fazer uma proposta.
HELENA ergue uma sobrancelha.
HELENA: — Estou ouvindo. TENÓRIO: — Desista da escola. É seu último aviso. HELENA (seca): — Não. TENÓRIO: — Ainda nem ouviu o resto. HELENA: — Não preciso. TENÓRIO: — Se abandonar essa ideia ridícula, eu permito que fique em Tanhanhem. O que você me diz? HELENA: — Permite? Desde quando você é dono da cidade? Eu não sou uma mulher de desistir do que quero. E você não vai mandar em mim, Tenório. TENÓRIO: — Desde que ninguém teve coragem de me enfrentar. E você está começando a me irritar, Helena. HELENA: — Até agora.
O olhar dele endurece.
TENÓRIO: — Estou tentando evitar que você se machuque. Eu não quero fazer nada contra você. HELENA: — Não. Você está tentando proteger o seu poder. Porque sabe que uma cidade educada deixa de ter medo. E sem medo você perde todo o seu controle.
TENÓRIO aperta o cabo do chicote.
TENÓRIO: — Você não sabe com quem está mexendo. HELENA: — Sei exatamente. Eu conheci o Tenório antes de tudo isso. Você já se esqueceu disso, coronel Tenório?
O vilão fica imóvel.
HELENA: — Conheci um rapaz sonhador. Um homem que acreditava em justiça. Um homem que eu amei.
Os olhos de TENÓRIO vacilam por um instante. Mas logo a dureza retorna. Ele olha HELENA com desprezo.
HELENA: — Mas aquele homem morreu. TENÓRIO: — Chega. HELENA: — Morreu no dia em que você escolheu o poder. No dia que deixou o dinheiro te dominasse. TENÓRIO: — Eu disse chega!
A voz dele ecoa pelo quarto. HELENA não se intimida. HELENA: — Você deixou o dinheiro te transformar. Você deixou a ambição te destruir. E agora quer destruir todo mundo junto. E isso não vai acontecer, Tenório. TENÓRIO: — Você vai se arrepender dessas palavras. HELENA: — Não me arrependo da verdade. TENÓRIO: — A escola não verá a luz do dia. HELENA: — Verá sim. TENÓRIO: — Eu não vou permitir. HELENA: — Você não pode impedir o futuro para sempre. A educação é o que vai salvar essa cidade.
TENÓRIO se aproxima perigosamente.
TENÓRIO: — Posso impedir você. HELENA: — Então faça. Agora saia do meu quarto.
TENÓRIO respira fundo. Tentando recuperar o controle.
TENÓRIO: — Última chance. HELENA: — Não. TENÓRIO: — Nem por você. HELENA: — Nem por mim. TENÓRIO: — Nem por Linda Flor. HELENA: — Nem por ela.
TENÓRIO aponta o dedo para HELENA.
TENÓRIO: — Então escute bem. Se você e Linda Flor insistirem nessa escola… Eu vou usar todo o poder que tenho. Toda a influência que construí. E vou reduzir vocês duas a pó. Estamos entendidos Helena?
HELENA não abaixa o olhar.
HELENA: — Pode tentar.
Os olhos dos dois se cruzam. Uma verdadeira guerra silenciosa. TENÓRIO abre a porta. Antes de sair, lança um último olhar para ela. Eles se encaram.
TENÓRIO: — Você acabou de escolher um lado. HELENA: — Não. Eu escolhi o lado certo.
TENÓRIO bate a porta com violência.vO estrondo ecoa pelo quarto. HELENA permanece parada. Respirando fundo. Pela primeira vez, o medo aparece em seu rosto. Ela olha para o documento sobre a mesa. Depois para a porta fechada. O seu semblante é de preocupação.
HELENA (baixinho): — Meu Deus… O Tenório está disposto a tudo. Eu tenho receio do que ele vai fazer.
A câmera fecha lentamente em seu rosto preocupado. 🌴
CENA 7. INTERIOR — BORDEL DA LUZ VERMELHA — QUARTO DE NINA — DIA
NINA está sentada na cama com o jornal aberto nas mãos. O sorriso venenoso em seu rosto denuncia sua satisfação ao ver o escândalo estampado na primeira página. Uma batida forte ecoa na porta. A vilã sorri.
NINA(sorrindo para si mesma): — Eu sabia que você vinha. Pode entrar. Eu sei bem que é você, Rosa.
A porta se abre violentamente. ROSA entra como uma tempestade. Os olhos estão tomados pela raiva.
NINA (deboche puro): —E então? Gostou da surpresa?
ROSA: — Você perdeu qualquer limite que ainda tinha, Nina. O que você fez foi algo totalmente imperdoável.
NINA: — Eu apenas mostrei pra cidade inteira quem é o grande Zeca Batista. Você deveria me agradecer.
ROSA: — Mentira!
NINA sorri friamente. Ela e ROSA se encaram.
NINA: — Mentira? A foto está no jornal. Tanhanhem inteira viu. Você não pode lutar contra os fatos, Rosa.
ROSA: — Eu conheço o Zeca. Conheço o homem que ele é. E não vai ser você que vai conseguir mudar isso.
NINA: — Conhece mesmo? Porque a cidade inteira parece estar descobrindo outra versão dele.
ROSA (aproximando-se): — De quem foi a ideia?
NINA: — O quê? Eu não sei do que você está falando.
ROSA: — Essa armação. Esse plano imundo.
NINA (sarcástica): — Armação? Que palavra feia.
ROSA: — Você nunca teve inteligência para montar uma sujeira dessas sozinha. Nós duas sabemos disso.
O sorriso desaparece do rosto de NINA.
NINA: — Cuidado, Rosa.
ROSA: — Tem dedo de alguém poderoso nisso. E eu vou descobrir quem foi. Você não consegue me enganar.
NINA: — Pode procurar o quanto quiser.
ROSA: — A verdade sempre aparece.
NINA: — Nem sempre.
As duas ficam frente a frente. Tensão no ar.
NINA: — O que importa é que agora seu santinho caiu do altar. E agora a cidade vai voltar a sua rotina normal.
ROSA: —Você é uma pessoa amarga.
NINA: — E você é uma tola.
ROSA: — Eu tenho pena de você.
NINA: — Guarde sua pena.
ROSA: — Você fez uma coisa muito baixa.
NINA: — Fiz o necessário.
ROSA: — Necessário pra quê?
NINA: — Pra você aprender a nunca mais atravessar o meu caminho. Você nunca será melhor do que eu, Rosa.
ROSA vai ficando ainda mais nervosa. NINA sorri.
ROSA: — Seu caminho?
NINA: — Tudo que eu quis, você teve primeiro.
ROSA: — Isso nunca foi sobre o Zeca.
NINA (gritando): — Claro que foi!
ROSA: — Não. Isso é inveja.
NINA: — Cala a boca!
ROSA: — Você odeia ver alguém feliz.
NINA: — E você adora bancar a santa.
O clima entre ROSA e NINA fica mais pesado.
ROSA: — Eu não sou santa.
NINA: — Mas todo mundo te trata como se fosse.
ROSA: — Enquanto você destrói a vida das pessoas.
NINA: — Eu faço o que for preciso para conseguir o que eu quero. E não vai ser você que vai me impedir.
ROSA: — Pois você foi longe demais.
NINA: — E o que você vai fazer?
ROSA a encara por alguns segundos.
NINA: — Você não vai fazer nada.
ROSA: — Tem razão. (pausa) Tem só uma coisa que eu posso fazer. E eu demorei demais para fazer isso.
ROSA desfere um tapa fortíssimo no rosto de NINA.
A vilã perde o equilíbrio e cai ao lado da cama. O jornal escapa de suas mãos. ROSA a encara seriamente.
NINA (furiosa): — Sua desgraçada!
ROSA: — Isso foi por você ter destruído a honra de um homem inocente. O Zeca não merecia isso. Não mesmo.
NINA: — Você vai pagar por isso!
ROSA: — Não. Quem vai pagar é você.
NINA: — Eu vou acabar com você!
ROSA: — A verdade está chegando, Nina.
NINA: — Sai daqui!
ROSA: — Isso ainda não acabou.
ROSA se vira e deixa o quarto. A porta bate com força.
NINA se levanta lentamente. O rosto queimando de ódio. Os olhos cheios de lágrimas de humilhação.
NINA (entre dentes): — Você vai se arrepender, Rosa...
Eu juro que você vai pagar caro por esse tapa.
Close no olhar tomado pelo ódio de NINA.
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CENA 8. EXTERIOR — RUA PRINCIPAL DE TANHANHEM — DIA
O carro de ZECA BATISTA para em frente à Rádio A Voz da Terra. Assim que ele desce, percebe dezenas de moradores reunidos. Alguns seguram exemplares do jornal. Outros cochicham indignados. O clima é hostil.
ZECA BATISTA percebe imediatamente que a situação é pior do que imaginava. Os populares estão enraivecidos.
ZECA BATISTA: — Pessoal... eu sei o que vocês estão pensando, mas eu preciso que me escutem!
Um homem ergue o jornal.
POPULAR 1: — Escutar o quê, Zeca? Tá tudo aqui estampado! Você ainda vai ter coragem de mentir?
POPULAR 2: — A gente confiava em você!
POPULAR 3: — Pregava moral na rádio e fazia isso escondido? Você é mesmo homem desprezível, Zeca.
Murmúrios de reprovação.
ZECA BATISTA: — Isso é uma armação! Eu nunca toquei naquela mulher! Vocês tem que acreditar.
A multidão reage com descrença.
POPULAR 4: — Agora ficou fácil dizer isso!
POPULAR 5: — A foto tá aí! Como é que explica?
ZECA BATISTA: — Eu estava dormindo! Alguém entrou no meu apartamento sem que eu percebesse!
Risadas surgem. ZECA BATISTA fica tenso.
POPULAR 2: — E nós temos cara de idiota?
POPULAR 6: — Eu acreditei em você a vida inteira!
POPULAR 7: — Hipócrita!
POPULAR 8: — Falso moralista!
As palavras começam a atingir ZECA BATISTA. Mesmo assim ele mantém a postura. Ele os encara bem sério.
ZECA BATISTA: — Vocês me conhecem! Conhecem minha história! Acham mesmo que eu passaria anos defendendo essa cidade pra jogar tudo fora desse jeito?
POPULAR 1: — Talvez a gente nunca tenha te conhecido de verdade! O coronel Tenório sempre esteve certo.
A frase atinge como um soco. ZECA BATISTA fica pensativo. Os populares começam a se exaltar.
ZECA BATISTA: — Quem fez isso quer destruir minha candidatura! E vocês sabem muito bem quem fez isso.
POPULAR 3: — Claro! A culpa agora é dos outros!
POPULAR 4: — Sempre tem uma desculpa!
ZECA BATISTA: — Não é desculpa! É a verdade!
POPULAR 5: — A verdade é que você nos enganou!
Os ânimos começam a ferver. Um homem amassa o jornal e o joga aos pés de ZECA BATISTA.
POPULAR 6: — Vergonha!
POPULAR 7: — Você não merece representar Tanhanhem! Nunca mais vamos ouvir seu programa!
ZECA BATISTA sente o peso da rejeição. Mas não recua.
Ele sobe em um banco de madeira da praça para ser visto por todos. Os populares encaram ele com raiva.
ZECA BATISTA: — Olhem pra mim! Eu não vou fugir! Não vou me esconder! E não vou abandonar essa cidade!
Se eu fosse culpado, estaria correndo. Estaria tentando desaparecer. Mas estou aqui! Porque sou inocente!
Alguns hesitam. Outros permanecem revoltados.
POPULAR 2: — Então prove!
POPULAR 1: — É! Prove!
ZECA BATISTA: — E eu vou provar! Nem que eu tenha que enfrentar o homem mais poderoso desta cidade.
A multidão percebe de quem ele está falando.
POPULAR 5: — Tá acusando o coronel Tenório?
ZECA BATISTA: — Eu estou dizendo que existe alguém muito interessado em destruir meu nome.
O silêncio toma conta da rua.
POPULAR 8: —E se você estiver mentindo?
ZECA BATISTA: — Então eu mereço perder tudo.
Os populares se entreolham. A dúvida começa a surgir em alguns rostos. Mas a revolta ainda é maior.
POPULAR 3: — Você tem pouco tempo pra provar isso, Zeca Batista. Ninguém aqui acredita mais em você.
POPULAR 4: — Muito pouco.
A multidão começa a se dispersar lentamente. Uns ainda o insultam. Outros apenas o encaram decepcionados. ZECA BATISTA permanece parado no meio da rua.
Sozinho. Humilhado. Mas determinado. Seu olhar sobe até a fachada da Rádio A Voz da Terra. A câmera fecha lentamente em seu rosto.
CENA 5. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO E SALUSTIANA — COZINHA — DIA
A mesa está posta, mas ninguém toca na comida. SALUSTIANA, LUZIA e MARIA DO CÉU estão em silêncio. O clima é pesado. A porta se abre e MACÁRIO entra. Seu rosto está machucado, a camisa trocada e ainda há marcas evidentes da violência que sofreu.
LUZIA (assustada, levantando-se imediatamente): —
Meu Deus do céu! Pai! O que fizeram com o senhor?
MACÁRIO: — Nada que importe mais do que eu estar em casa, minha filha. Você não precisa se preocupar.
MARIA DO CÉU (fria, sem se levantar): — Eu já sei o que aconteceu. E sinceramente? Isso só está fazendo a nossa família passar mais vergonha nessa cidade.
SALUSTIANA não acredita no que ela ouve.
SALUSTIANA (indignada): — Maria do Céu!
MARIA DO CÉU: — O povo inteiro está falando do roubo do cacau. Não dá mais pra fingir que nada aconteceu. Vocês precisam aceitar a realidade.
SALUSTIANA (batendo na mesa): — Respeite seu pai!
MARIA DO CÉU: — Respeitar? Como é que eu vou respeitar alguém que virou motivo de fofoca em Tanhanhem inteira? O meu pai é um homem fraco.
MACÁRIO (magoado): — Você acredita mesmo que eu sou ladrão? Você acha isso do homem que criou você?
MARIA DO CÉU: — As provas estão aí. Pedro viu. Dito viu. Todo mundo viu. E você está negando a verdade.
MACÁRIO: — Olhe bem pra mim, Maria do Céu.
MARIA DO CÉU sustenta o olhar. MACÁRIO a encara.
MACÁRIO: — Eu jamais roubei nada de ninguém. Nunca precisei disso. Porque é tão difícil de acreditar?
MARIA DO CÉU: — Então por que foi pego?
MACÁRIO: —;Porque fui vítima de uma armação.
MARIA DO CÉU: — Isso é o que todo culpado diz.
MACÁRIO baixa a cabeça, profundamente decepcionado. Ele olha com seriedade para sua filha.
MACÁRIO: — Eu suportei a humilhação. Suportei a surra. Mas ouvir isso da minha própria filha…
MACÁRIO respira fundo.
MACÁRIO: — Isso dói muito mais.
LUZIA (aproximando-se de Maria do Céu): — Você devia sentir vergonha. Olha o que o nosso pai sofreu.
MARIA DO CÉU: — E por quê?
LUZIA: — Porque conhece o homem que o nosso pai é.
MARIA DO CÉU: — Conheço muito bem.
LUZIA: — Não conhece não. Mas eu conheço você.
MARIA DO CÉU estreita os olhos.
LUZIA: — Eu sei que foi você quem armou junto com Pedro aquele falso flagrante pra separar Jerônimo e Linda Flor. Não adianta mais você mentir, Maria do Céu.
SALUSTIANA e MACÁRIO ficam chocados.
SALUSTIANA: — O quê?
MACÁRIO: — Maria do Céu... isso é verdade?
MARIA DO CÉU sorri friamente.
MARIA DO CÉU: — É. E faria tudo de novo.
SALUSTIANA: — Minha Nossa Senhora...
MARIA DO CÉU: — Jerônimo deveria estar comigo.
LUZIA: — Ele nunca vai estar! Ele não ama você.
MARIA DO CÉU: — Vai sim. Eu não vou desistir dele.
MACÁRIO: — Filha...
MARIA DO CÉU: — E se Linda Flor continuar no meu caminho. Eu juro que eu faço algo bastante definitivo…
MARIA DO CÉU sorri de forma perturbadora.
MARIA DO CÉU: — Eu tiro ela do meu caminho.
LUZIA (gritando): — Chega!
LUZIA dá um forte tapa no rosto da irmã. MARIA DO CÉU leva a mão ao rosto, atônita. Elas se encaram.
LUZIA: — Você perdeu completamente o juízo!
MARIA DO CÉU (com ódio): — Você me bateu?
LUZIA: —!E bato de novo se você continuar ameaçando a Linda Flor! Espero que você agora tenha entendido.
MARIA DO CÉU: — Ela roubou tudo o que era meu!
LUZIA: — Jerônimo nunca foi seu!
MARIA DO CÉU: — Vai ser! Pode anotar, irmãzinha.
As duas avançam uma contra a outra, mas SALUSTIANA se coloca no meio. O clima fica tenso.
SALUSTIANA: — Chega! As duas!
MACÁRIO também intervém.
MACÁRIO: — Isso já passou de todos os limites!
SALUSTIANA (chorando): — Maria do Céu, olha o que você está se tornando! Eu não te reconheço mais.
MARIA DO CÉU: — Eu estou me tornando alguém que luta pelo que quer. E o Jerônimo vai ser meu. Só meu.
LUZIA: — Não. Você está se tornando uma pessoa cruel.
SALUSTIANA: — Sua obsessão está destruindo você.
MARIA DO CÉU: — Então deixem que eu me destrua.
MARIA DO CÉU encara cada um deles.
MARIA DO CÉU: — Mas escutem muito bem.(pausa) Eu vou até as últimas consequências. Não adianta me parar.
MACÁRIO: — Filha...
MARIA DO CÉU: — E é melhor que nenhum de vocês atravesse o meu caminho. Para o bem de vocês.
MARIA DO CÉU sai da casa batendo a porta com força.
O silêncio volta a dominar o ambiente.
LUZIA: — Eu estou com medo dela.
SALUSTIANA: — Eu também, minha filha.
MACÁRIO: — Aquela não é mais a menina que nós criamos. O que foi que aconteceu com a Maria?
SALUSTIANA segura a mão do marido.
SALUSTIANA: — O que foi que aconteceu com a nossa filha? Onde foi que a gente errou com ela, Macário?
MACÁRIO não responde. Os três permanecem imóveis, tomados pela preocupação, enquanto a noite parece ficar ainda mais pesada ao redor deles.
🌴
CENA 6. INTERIOR — PREFEITURA DE TANHANHEM — GABINETE DO PREFEITO — DIA
AURELIANO está atrás de sua mesa examinando alguns documentos. A tranquilidade é interrompida quando a porta do gabinete se abre violentamente. CONSTÂNCIA entra feito um furacão. Nas mãos, um jornal. Sem pedir licença, ela atravessa a sala e joga o periódico sobre a mesa do marido. AURELIANO a encara confuso.
CONSTÂNCIA: — Está satisfeito?
AURELIANO se assusta.
AURELIANO: — C-Constância?
CONSTÂNCIA: —;Eu perguntei se está satisfeito!
AURELIANO pega o jornal. Ao ver a fotografia de ZECA BATISTA ao lado de NINA, quase deixa o jornal cair.
AURELIANO: — Mas... mas o que é isso?
CONSTÂNCIA: — É o resultado da sua brilhante escolha para sucedê-lo na prefeitura de Tanhanhem!
AURELIANO continua olhando a manchete.
AURELIANO: — Isso não pode estar certo...
CONSTÂNCIA: — Está estampado na primeira página!
AURELIANO: — Deve haver uma explicação.
CONSTÂNCIA: — Explicação? É sério isso, Aureliano?
AURELIANO: — O Zeca jamais faria uma coisa dessas.
CONSTÂNCIA: —Meu Deus do céu, homem! O homem está agarrado numa moça seminua e você ainda procura explicação? Você deveria ser mais inteligente.
AURELIANO: — As coisas nem sempre são o que parecem. Deve haver algo que explique isso. Acredite.
CONSTÂNCIA: — Pois parecem muito claras para mim!
AURELIANO coloca o jornal sobre a mesa.
AURELIANO: — Eu preciso conversar com ele.
CONSTÂNCIA: — Não! Absolutamente não.
AURELIANO levanta os olhos.
CONSTÂNCIA: — Você precisa procurar Tenório Ferreira Lemos! Vai até ele e diz que estava errado!
AURELIANO: — N-não. Não vou.
CONSTÂNCIA: — Vai pedir desculpas!
AURELIANO: — Constância… Por favor… Reconsidere.
CONSTÂNCIA: — Vai dizer que quer continuar como prefeito de Tanhanhem e que abandonou essa loucura de apoiar Zeca Batista! Esse é o único jeito, Aureliano.
AURELIANO se levanta. Ele encara sua esposa.
AURELIANO: — Eu não posso fazer isso.
CONSTÂNCIA: — Pode e deve!
AURELIANO: — Eu não vou abandonar o rapaz justamente agora. Eu sinto que o Zeca é inocente.
CONSTÂNCIA: — Justamente agora é quando deveria abandoná-lo! Porque se meteu onde não devia!
AURELIANO: — Eu acredito nele.
CONSTÂNCIA Pois eu acredito nos meus olhos!
CONSTÂNCIA respira fundo, tentando se controlar.
Não consegue. Ela e AURELIANO não estão de acordo.
CONSTÂNCIA: — Você sabe o que estão comentando pela cidade? Que o Zeca Batista é um hipócrita.
AURELIAN: — Não me importo com fofocas.
CONSTÂNCIA: — Pois deveria!
CONSTÂNCIA aponta para o jornal em cima da mesa.
CONSTÂNCIA: — O nome da nossa família está sendo arrastado para a lama! É isso que você queria?
AURELIANO: — Está exagerando.
CONSTÂNCIA: — Estou protegendo o que é nosso!
AURELIANO: — E eu estou tentando fazer o que é certo.
CONSTÂNCIA: — O certo? O certo seria salvar sua reputação antes que seja tarde! Mas isso você não faz.
AURELIANO : —Eu não vou me curvar ao Tenório.
CONSTÂNCIA: — Então escute muito bem.
CONSTÂNCIA se aproxima da mesa.
CONSTÂNCIA: — Se continuar apoiando esse Zeca Batista depois dessa vergonha… Pode esquecer que tem esposa! Pode esquecer! Você me ouviu, Aureliano?
AURELIANO: — Você não fala sério.
CONSTÂNCIA: — Falo seríssimo!
AURELIANO: — Você não pode me expulsar de casa.
CONSTÂNCIA: — Posso sim! Posso e vou!
AURELIANO: — Você está sendo egoísta.
CONSTÂNCIA: — E você está sendo irresponsável! (pausa) Eu só quero proteger o bom nome da nossa família. Será que você não pode entender isso?
QAURELIANO: — E eu só quero proteger a cidade.
CONSTÂNCIA: — Então faça a escolha certa! Continuar ao lado de Zeca Batista. Eu sinto muito, Constância.
CONSTÂNCIA fica imóvel. Ferida. Furiosa. Incrédula.
CONSTÂNCIA: — Então é isso. Pois saiba que acabou de comprar uma guerra. E é uma guerra que você não vai conseguir sustentar. Você sabe que essa é a verdade.
CONSTÂNCIA gira nos calcanhares. Caminha até a porta. Antes de sair, lança um último olhar ao marido.
CONSTÂNCIA: — Quando perceber o tamanho do erro que está cometendo, talvez seja tarde demais.
CONSTÂNCIA sai. A porta bate. O silêncio toma conta do gabinete. AURELIANO permanece parado. Olha para o jornal. Olha para a porta. Passa a mão pelo rosto.
AURELIANO (solitário, nervoso): — M-meu Deus do céu... m-mas em que confusão esse rapaz foi se meter?
CENA 3. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — PLANTAÇÃO DE CACAU — MANHÃ
O sol já castiga os trabalhadores. A colheita do cacau segue intensa. Homens carregam sacas. Outros cortam frutos. Mas o assunto entre eles é um só. A surra que MACÁRIO levou. Os cochichos se espalham discretamente. PEDRO observa tudo. Enquanto TENÓRIO permanece de pé. Imponente. A mão apoiada no chicote. O olhar frio. Subitamente. O barulho de um carro se aproximando.nOs trabalhadores param para olhar. PEDRO franze a testa bastante impaciente.
PEDRO: — Quem será uma hora dessas?
TENÓRIO esboça um sorriso quase imperceptível.
TENÓRIO: — Tenho uma leve ideia.
O carro para. A porta se abre. E ZECA BATISTA desce.
Com o rosto tomado pela raiva. Os trabalhadores se entreolham.bPEDRO sorri. ZECA BATISTA caminha decidido até TENÓRIO. Sem dizer uma única palavra.
Ele dá um soco certeiro. TENÓRIO cambaleia um passo.
O canto da boca sangra. Um silêncio absoluto toma conta da fazenda. PEDRO avança. A tensão cresce.
PEDRO: — Seu desgraçado!
Mas TENÓRIO ergue a mão. Impedindo-o. Sem tirar os olhos de ZECA BATISTA. PEDRO fica bastante confuso.
TENÓRIO: — Deixa. Quero ouvir o que ele tem pra dizer. Ele deve estar com bastante raiva. Não é, Zeca?
ZECA BATISTA respira fundo. Indignado.
ZECA BATISTA: — Eu sei que foi você. Sei que aquelas fotos foram uma armação sua! Não adianta fingir.
TENÓRIO limpa o sangue do canto da boca. Sorri.
TENÓRIO: — Sabe? Que interessante. E como pretende provar isso? Porque ninguém vai acreditar em você.
ZECA BATISTA: — Eu vou descobrir. Nem que seja a última coisa que eu faça. Pode ter certeza disso.
PEDRO se aproxima. Debochado.
PEDRO: — Finalmente o santinho da cidade caiu do altar. Já não era sem tempo. Agora a Rosa vai enxergar quem você realmente é. E quando isso acontecer… Ela volta pros meus braços. É isso não vai demorar.
ZECA BATISTA encara PEDRO com desprezo.
ZECA BATISTA: — Você não merece nem pronunciar o nome dela. Você não passa de um cafajeste, Pedro.
PEDRO fecha a expressão.
ZECA BATISTA: — Você nunca conseguiu ser um homem decente. Nunca conseguiu ser marido. E muito menos pai pro Quim. Você deveria ter vergonha disso.
Os trabalhadores começam a cochichar novamente.
PEDRO fica vermelho de raiva. Ele encara ZECA BATISTA. O radialista não demonstra medo.
PEDRO: — Cuidado com o que fala!
ZECA BATISTA: — Ou vai fazer o quê? Mandar me bater também? Como fizeram com Macário? Covardes.
O silêncio volta a cair. TENÓRIO se aproxima lentamente. Os dois ficam frente a frente.
TENÓRIO: — Você está se esquecendo com quem está falando. E se esquecendo quem manda nessa cidade.
ZECA BATISTA: — Não. Eu sei exatamente. Estou falando com o homem que acredita ser dono dessa cidade. Mas deixa eu te contar algo. Você não é.
TENÓRIO sorri. Mas o ódio em seus olhos é evidente.
TENÓRIO: — E sua aventura política acabou. Acabou no momento em que resolveu desafiar os Ferreira Lemos.
Tanhanhem continuará exatamente como sempre foi.
Sob o nosso comando. Sob o nosso poder. Entendeu?
ZECA BATISTA encara o vilão sem abaixar a cabeça.
ZECA BATISTA: — Isso é o que você pensa. Eu vou provar minha inocência. Vou mostrar ao povo que tudo isso não passou de uma armadilha. Algo imundo.
PEDRO gargalha.
PEDRO: — Armadilha? Você devia agradecer por estar saindo daqui inteiro. Isso é pra aprender a nunca enfrentar quem realmente manda nessa cidade.
ZECA BATISTA: — Quem manda numa cidade é o povo. Não um coronel agarrado ao passado. Essa é a verdade.
TENÓRIO: — Some da minha frente. Antes que aconteça algo que nenhum de nós vai conseguir controlar.
ZECA BATISTA percebe os homens ao redor. Percebe os olhares. Percebe que está sozinho. Mas não se intimida.
Dá um passo para trás. Depois encara TENÓRIO uma última vez. O vilão não gosta nenhum pouco disso.
ZECA BATISTA: — Essa guerra está longe de acabar.
E quando a verdade aparecer… O povo de Tanhanhem vai saber quem estava mentindo. E quem estava falando a verdade. E você terá o seu império arruinado.
TENÓRIO apenas o observa. Frio. Imóvel. ZECA BATISTA entra no carro. Liga o motor. E parte. O veículo desaparece pela estrada de terra. O silêncio permanece por alguns segundos. Até PEDRO quebrá-lo.
PEDRO: — O homem tá ficando mais corajoso demais
TENÓRIO continua olhando para a estrada. Sombrio.
PEDRO: — O que o coronel pretende fazer?
TENÓRIO: — Por enquanto… Nada.
PEDRO: — E se ele continuar cavando?
TENÓRIO finalmente se vira. O olhar gelado. Perigoso.
TENÓRIO: — Então Zeca Batista vai precisar ser tirado de cena. Ele não pode continuar vivo e me desafiando.
PEDRO (sorrindo) : — Entendi perfeitamente.
TENÓRIO volta a observar a fazenda.bEnquanto os trabalhadores retomam o serviço. Mas agora todos sabem. Uma nova guerra acaba de começar em TANHANHEM. E ele não quer perder essa guerra.
🌴
CENA 4. INTERIOR — CASA DE ZÉ BENTO E LINDA FLOR — SALA — DIA
As horas começam a passar. A casa simples está silenciosa. ZÉ BENTO organiza algumas ferramentas sobre a mesa quando a porta se abre. LINDA FLOR entra. Ela tenta disfarçar. Mas é impossível. Há um brilho diferente em seu olhar. Uma felicidade que transborda. ZÉ BENTO percebe imediatamente.
ZÉ BENTO: — Oxente… Que felicidade toda é essa?
LINDA FLOR tenta esconder o sorriso. Mas não consegue. ZÉ BENTO então percebe a corda com a pequena pedra enrolada em sua mão. Ele aponta.
ZÉ BENTO: — E essa pedrinha aí? Tem história nisso, num tem? Você não precisa mentir para mim, filha.
LINDA FLOR olha para a pedra. Os olhos se enchem de emoção. Ela respira fundo e depois olha para seu pai.
LINDA FLOR: — Tem. E é a história mais bonita da minha vida. Algo que vem desde a minha infância.
ZÉ BENTO já começa a sorrir.
ZÉ BENTO: — Jerônimo? Não é, minha filha?
LINDA FLOR confirma com a cabeça.
LINDA FLOR: — Jerônimo me pediu em casamento.
O sorriso de ZÉ BENTO aumenta. Os olhos dele se enchem de orgulho. Ele e LINDA FLOR se encaram.
ZÉ BENTO: — Então era isso… Eu sabia.
LINDA FLOR: — Foi ele quem colocou essa corda na minha mão. A gente se encontrou no campo aberto ontem a noite. Ele disse que não quer ficar longe.
ZÉ BENTO se aproxima. Observa a filha.
ZÉ BENTO: — Dá pra ver de longe o quanto você tá feliz.
Seu rosto tá iluminado. Parece até uma menina.
LINDA Flor segura a pedra. Com carinho.
LINDA FLOR: — Porque isso aqui não é uma joia.
Nem ouro. Nem riqueza. É uma promessa. Um amor que nasceu quando a gente ainda era criança.
ZÉ BENTO sorri. Visivelmente emocionado.
ZÉ BENTO: — Eu sempre soube que Jerônimo era um homem bom. Direito. Honesto. Igual ao pai dele.
LINDA FLOR olha para Zé Bento. Os olhos marejados.
LINDA FLOR: —Então… O senhor dá sua bênção?
ZÉ BENTO fica alguns segundos em silêncio. Observando a filha. Depois abre um sorriso enorme.
ZÉ BENTO: — Eu seria um completo maluco se dissesse não. Eu fico muito feliz com esse casamento, Linda Flor.
LINDA FLOR: — Pai...
ZÉ BENTO: — O que mais quero nesse mundo é ver você feliz. E eu sei que você ama aquele rapaz. É o importa.
LINDA FLOR abraça o pai. Fortemente.
LINDA FLOR: — Obrigada. Obrigada por tudo.
Os dois permanecem abraçados. Então LINDA FLOR se afasta um pouco. Ainda bastante emocionada.
LINDA FLOR: — Tem mais uma coisa. Eu queria muito que fosse o senhor a me levar até o altar.
ZÉ BENTO fica imóvel. As palavras o atingem profundamente. Os olhos dele marejam. Ele demora alguns segundos para conseguir responder.
ZÉ BENTO: — Nada… Nada nesse mundo poderia me fazer mais feliz do que isso. Pode ter certeza disso.
LINDA FLOR volta a abraçá-lo.bAgora ambos emocionados.bDepois de alguns instantes. ZÉ BENTO respira fundo. Ele encara LINDA FLOR suavemente.
ZÉ BENTO: — Mas eu também tenho uma coisa pra te contar. Algo que aconteceu e você não vai acreditar.
LINDA FLOR: — Não precisa.
ZÉ BENTO (estranhando): — Como assim não precisa?
LINDA FLOR: — O senhor beijou a Helena.
ZÉ BENTO fica completamente sem reação.
ZÉ BENTO: — Mas… Quem te contou?
LINDA FLOR: — Ninguém. Porque eu tô vendo nos seus olhos. E o senhor não consegue esconder isso de mim.
Os dois riem. Pela primeira vez em muito tempo. Uma felicidade leve. Sincera. Algo que o deixa suave.
ZÉ BENTO: — Eu não sei esconder mesmo, né?
LINDA FLOR: — Nunca soube.
ZÉ BENTO: — Ela é uma mulher muito especial.
LINDA FLOR: — E o senhor merece ser feliz. Depois de tudo o que sofreu. Depois de tudo o que perdeu.
ZÉ BENTO sente os olhos marejarem novamente.
ZÉ BENTO: — Talvez Deus esteja me dando uma segunda chance. E eu não pretendo desperdiçar.
LINDA FLOR: — E eu acho que o senhor devia aceitar.
Pai e filha se olham. Com amor. Com cumplicidade.
Com a certeza de que finalmente suas vidas estão mudando. Eles se abraçam mais uma vez.bEnquanto o sol entra pela janela da casa. Iluminando aquele momento de felicidade simples.
Continuação imediata do capítulo anterior. MARIA DO CÉU vai embora pela praça. Os passos rápidos. O rosto tomado pelo ódio. As lágrimas misturadas com a raiva.
JERÔNIMO e LINDA FLOR permanecem parados.
Observando a vilã desaparecer na escuridão. O silêncio pesa. JERÔNIMO se volta para LINDA FLOR. A marca do tapa ainda está visível em seu rosto. Imediatamente ele toca seu rosto com delicadeza. Eles se encaram.
JERÔNIMO: — Você está bem?
LINDA FLOR (forçando um sorriso): — Já passei por coisa pior. Não vai ser a Maria do Céu que vai me irritar.
JERÔNIMO balança a cabeça. Indignado.
JERÔNIMO: — Eu devia ter impedido.
LINDA FLOR: — Não. Ela precisava entender que eu não vou abaixar a cabeça pra ela. Nunca mais.
JERÔNIMO observa a mulher que ama. Orgulhoso.
JERÔNIMO: — Você foi corajosa. Mais do que eu teria sido. A Maria do Céu está ficando mais obcecada.
LINDA FLOR: — Não fala isso. Se você não estivesse aqui ela teria feito muito pior. E você sabe bem disso.
JERÔNIMO olha na direção por onde Maria do Céu desapareceu. Preocupado. LINDA FLOR percebe.
JERÔNIMO: —;Ela está cada vez mais perigosa. Cada vez mais fora de si. Alguém precisa fazer alguma coisa.
LINDA FLOR: — Eu sei. E é isso que me assusta.
Os dois permanecem em silêncio. O vento sopra suavemente pela praça. Eles se olham fixamente.
LINDA FLOR: — Quando ela falou daquele jeito… Eu senti medo. Eu fico com receio do que ela possa fazer.
JERÔNIMO: — Fazer o quê?
LINDA FLOR: — De que ela seja capaz de qualquer coisa. Porque uma pessoa que já não consegue distinguir amor de obsessão… Pode acabar fazendo loucuras.
JERÔNIMO: — Eu não vou deixar nada acontecer com você. A Maria do Céu nunca vai chegar perto de nós.
LINDA FLOR sorri. Emocionada.
LINDA FLOR: — E eu não vou deixar nada acontecer com você. Se é guerra que a Maria do Céu quer então é o que ela vai ter. Porque eu não vou desistir do que quero.
JERÔNIMO fica sério. Como se lembrasse de algo.
LINDA FLOR: — O que foi?
JERÔNIMO: — Tenório. Pedro. Maria do Céu. Tudo está ficando perigoso demais. Tenho a sensação de que alguma coisa muito ruim está para acontecer.
LINDA FLOR sente um arrepio. Mas tenta afastar o pressentimento. Ela toca nas mãos dele suavemente.
LINDA FLOR: — Nós já enfrentamos tanta coisa. Vamos enfrentar essa também. Juntos. Como sempre fizemos.
JERÔNIMO sorri. Toca a pedra amarrada à mão dela.
JERÔNIMO: — Juntos. Sempre.
LINDA FLOR se aproxima. Os dois se abraçam. A câmera começa a se afastar. Mas, do outro lado da praça… Escondida atrás de uma árvore… MARIA DO CÉU observa tudo. Ela não foi embora. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Mas também de ódio. Muito ódio.
MARIA DO CÉU (sussurrando): — Se eu não posso ser feliz… Vocês também não vão ser. Nunca.
O sorriso perturbador surge novamente em seu rosto.
Enquanto observa o casal abraçado. A câmera fecha lentamente em seus olhos obsessivos. 🌴
CENA 2. EXTERIOR — EM FRENTE AO TRIBUNAL DE TANHANHEM — MANHÃ
O movimento na rua é discreto. HELENA desce as escadarias do tribunal. Nas mãos, um documento cuidadosamente dobrado. Seu semblante demonstra satisfação. Uma vitória importante acabou de ser conquistada. Mas sua expressão muda quando percebe alguém bloqueando seu caminho. CARLOTA FERREIRA LEMOS. Elegante. Imponente. E tomada pelo ódio.
As duas mulheres se olham. Como duas forças opostas.
CARLOTA: — Então é verdade. Você continua em Tanhanhem. Eu pensei que tinha sido clara com você.
HELENA: — Pelo visto isso incomoda bastante você.
CARLOTA: — Mais do que você imagina. Principalmente depois que descobri esse passado ridículo que você teve com Tenório. E essa aproximação inconveniente com Zé Bento. Eu não saber de você perto dele. Entendido?
HELENA mantém a calma.
HELENA: — Que bom. Porque eu não pretendo ir embora tão cedo. (pausa) Principalmente agora.
CARLOTA: — Agora o quê? Do que você está falando?
HELENA ergue o documento. Um sorriso surge em seu rosto. CARLOTA a encara com uma frieza descomunal.
HELENA: — Porque a autorização saiu. A escola foi aprovada. Linda Flor vai ficar muito feliz. Eu sei que vai.
O sangue parece ferver nas veias de CARLOTA.
CARLOTA: — O quê?! Nem pensar.
Ela tenta arrancar o documento das mãos de HELENA.
Mas Helena é mais rápida. Recua imediatamente.
HELENA: — Nem tente.
CARLOTA: — Me dê isso! AGORA!
HELENA: — Não. É melhor você desistir, Carlota.
CARLOTA: — Essa escola não vai existir! Está me ouvindo?! NÃO VAI! Isso é uma afronta a minha família.
HELENA a encara sem recuar um centímetro.
HELENA: — Você perdeu, Carlota. Você e Tenório perderam. Não existe mais nada que possam fazer. As crianças de Tanhanhem vão estudar. Vão aprender a ler.
A escrever. Vão conhecer um mundo maior do que o medo que vocês impõem. É isso é uma grande vitória.
CARLOTA ri. Uma risada carregada de desprezo.
CARLOTA: — Você realmente acha que um papel vai derrotar os Ferreira Lemos? Você é muito ridícula.
HELENA: — Não. Mas a verdade costuma derrotar.
E ela está chegando cada vez mais perto de vocês.
CARLOTA: — Isso nunca vai acontecer! NUNCA!
Ou eu não me chamo Carlota Ferreira Lemos!
HELENA sorri. Agora de forma provocadora.
HELENA: — Falando em derrotas… Tem outra coisa que eu deveria agradecer. É isso eu faço questão de contar.
CARLOTA: — Do que está falando?
HELENA: — Do Zé Bento.
O rosto da vilã endurece imediatamente.
HELENA: — Você tinha razão. Ele é um homem extraordinário. E o beijo dele… É inesquecível.
A provocação atinge CARLOTA em cheio. Ela perde completamente o controle. Levanta a mão. Pronta para acertar HELENA. Mas… HELENA segura seu pulso no ar. Com firmeza. Sem dificuldade. As duas se encaram.
HELENA: — Não. Você não vai fazer isso.
CARLOTA: — Me larga!
HELENA então a empurra para trás. Sem violência.
Mas com elegância e autoridade. CARLOTA recua alguns passos. Humilhada. A vilã olha para HELENA com ódio.
HELENA: — Você passou anos destruindo vidas. A de Zé Bento.bA de Linda Flor. A de muita gente nessa cidade.
Mas isso acabou. Eu vou enfrentar você de frente.
CARLOTA: — Quem você pensa que é?!
HELENA: — Alguém que não tem medo de você. E que sabe exatamente onde você e Tenório deveriam estar.
CARLOTA respira pesadamente.
HELENA: — Na cadeia.
O ódio da vilã torna-se quase palpável.
CARLOTA: — Isso não vai ficar assim. NÃO VAI!
HELENA: — Já ouvi essa ameaça antes. E continuo aqui.
CARLOTA aponta o dedo para ela.
CARLOTA: — Você vai se arrepender. Eu juro que vai.
HELENA: — Boa sorte tentando.
CARLOTA gira nos calcanhares. E vai embora. Bufando de ódio. Consumida pela raiva. HELENA observa a rival desaparecer pela rua.vDepois olha para o documento em suas mãos. Seus olhos brilham. Ela aperta o papel contra o peito.vE sussurra para si mesma:
HELENA: — A educação vai vencer. Vai vencer o medo.
Vai vencer o coronelismo. E vai vencer gente como vocês. Não existe medo que possa vencer a educação.
HELENA sorri. Determinada. Enquanto segue caminhando pela rua ensolarada de TANHANHEM.
CENA 7. INTERIOR — RÁDIO “A VOZ DA TERRA” — ESTÚDIO — MANHÃ O estúdio está pronto para mais uma transmissão. Os equipamentos ligados. Os papéis organizados sobre a mesa. ZECA BATISTA ajusta os fones de ouvido. Faltam poucos minutos para entrar no ar. De repente… BATIDAS FORTES na porta. Uma atrás da outra. ZECA BATISTA estranha. Ele fica bastante confuso.
ZECA BATISTA: — Pode entrar!
A porta se abre. ROSA entra. O rosto abatido. Os olhos vermelhos. E um jornal amassado nas mãos. ZECA BATISTA imediatamente percebe que algo está errado.
ZECA BATISTA: — Rosa? O que aconteceu?
Sem responder… Ela caminha até a mesa de som. E joga o jornal sobre ela. O impacto ecoa pelo estúdio.
ZECA BATISTA: — Mas o que é isso? ROSA: — Olha. Só olha.
Confuso, ZECA BATISTA pega o jornal. Seus olhos percorrem a manchete. Então param na fotografia. Ele empalidece. A imagem mostra NINA seminua ao seu lado enquanto ele dorme. O choque é imediato.
ZECA BATISTA: — Meu Deus do céu… Não pode ser…
ROSA tenta conter as lágrimas. Sem sucesso.
ROSA: — Por quê, Zeca? Por que você fez isso comigo? ZECA BATISTA: — Eu não fiz! Eu juro que não fiz! ROSA: — As fotos estão aí! Todo mundo em Tanhanhem viu! Como eu vou explicar isso? Me diz como, Zeca. ZECA BATISTA: — Não tem explicação porque isso nunca aconteceu!É uma armação! Uma armadilha! ROSA balança a cabeça. Ferida. Confusa.
ROSA: — As provas estão todas contra você… Como eu posso ignorar isso? Eu não sei no que acreditar.
ZECA BATISTA se aproxima. Segura suavemente as mãos dela. Ele e ROSA ficam apenas se olhando.
ZECA BATISTA: — Porque você me conhece. Porque sabe quem eu sou. Eu jamais faria uma coisa dessas com você. Jamais. Acredita em mim, Rosa. ROSA: — Mas a Nina estava lá! A fotografia mostra ela ao seu lado! Como você pode me explicar isso? ZECA BATISTA: — E justamente por isso eu sei que tem algo errado. A Nina me odeia. Ela odeia você. Por que eu iria me envolver com uma mulher que passou os últimos meses tentando destruir nossa felicidade?
ROSA fica em silêncio. As palavras dele fazem sentido.
ROSA— Então por que ela faria isso? O que ela ganha? ZECA BATISTA (pensativo): — Eu não sei exatamente. Mas tem uma coisa que eu sinto. O dedo do Tenório Ferreira Lemos. Ele faria qualquer coisa para impedir que eu me candidate a prefeitura de Tanhanhem. ROSA: — Você acha mesmo? ZECA BATISTA: — Desde que eu comecei a enfrentar aquele homem no rádio, ele vem procurando uma forma de me derrubar. E agora isso aparece. Não pode ser coincidência. O Tenório não joga para perder, Rosa.
ROSA baixa os olhos. Uma lágrima escorre.
ROSA: — Eu quero acreditar em você. Quero muito.
ZECA BATISTA ergue delicadamente o rosto dela.
ZECA BATISTA: — Então acredita. Confia em mim. Só isso. Porque eu estou dizendo a verdade.
Os olhos dos dois se encontram. Cheios de emoção. Cheios de medo. Cheios de amor. Lentamente… ROSA se aproxima. Encosta sua testa na dele. Fecha os olhos.
ROSA: — Eu tenho medo do que vem pela frente. ZECA BATISTA: — Eu também. Mas não vou enfrentar isso sem você. Eu amo você mais do que tudo, Rosa. ROSA: — Promete? ZECA BATISTA: — Prometo. Pela minha vida. Pelo que eu sinto por você. Nada vai conseguir separar a gente.
Os dois permanecem ali. Testa contra testa. Buscando força um no outro. Enquanto do lado de fora… Toda Tanhanhem comenta o escândalo estampado nos jornais. A câmera vai se afastando lentamente. Mostrando o pequeno estúdio. E os dois unidos diante da tempestade que acaba de começar. 🌴
CENA 8. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — ESCRITÓRIO DE TENÓRIO — MANHÃ O escritório está mergulhado em silêncio. TENÓRIO está sentado atrás de sua mesa. Um copo de conhaque pela metade. O olhar frio. Calculista. Perigoso. Uma batida na porta. O vilão levanta o olhar bem gélido.
TENÓRIO: — Entre.
A porta se abre. PEDRO entra. Fecha a porta atrás de si. Permanece de pé diante do coronel que o encara.
PEDRO: — Mandou me chamar, coronel? TENÓRIO: — Mandei. Tenho um serviço importante pra você. E eu sei bem como você gosta de dinheiro fácil.
PEDRO arqueia uma sobrancelha.
PEDRO: — Tô ouvindo, coronel.
TENÓRIO se levanta lentamente. Vai até a janela. Observa as terras da Ferreira Lemos em sua imensidão.
TENÓRIO: — Eu e o delegado Augusto chegamos à conclusão de que o Jerônimo foi longe demais. PEDRO: — Finalmente chegaram nessa conclusão? TENÓRIO ignora a provocação.
TENÓRIO: — Ele virou um inimigo perigoso. Está fazendo perguntas demais. Descobrindo coisas demais. E isso não pode continuar. Alguém precisa parar ele. PEDRO (sério): — E o que o coronel quer fazer?
TENÓRIO se vira. Os olhos carregados de ódio.
TENÓRIO: — O mesmo que aconteceu com Xavier. PEDRO: — Agora estamos falando a mesma língua. TENÓRIO: — Jerônimo precisa morrer.
Silêncio. PEDRO absorve cada palavra. Sem demonstrar qualquer choque. Pelo contrário. Parece satisfeito.
PEDRO: — Posso dizer uma coisa? TENÓRIO: — Fale. PEDRO: — Vai ser um prazer.
TENÓRIO se aproxima. Ele e PEDRO se encaram.
TENÓRIO: — Mas não pode haver erros. Não pode haver testemunhas. Não pode haver suspeitas. Quando isso acontecer… Tem que parecer destino. Acidente. Fatalidade. Qualquer coisa. Menos assassinato. PEDRO (sorrindo): — Coronel… Eu sou especialista em fazer desgraça parecer obra do destino. Pode confiar.
TENÓRIO esboça um sorriso sombrio.
TENÓRIO: — É exatamente por isso que você está aqui.
PEDRO caminha pelo escritório. Pensativo.
PEDRO: — Tem só uma coisa. Linda Flor.
TENÓRIO fecha a expressão.
PEDRO: — Ela não desgruda do Jerônimo. Se ela resolver meter o nariz onde não deve… Pode complicar tudo. E o coronel sabe como isso pode ser perigoso. : TENÓRIO: — Linda Flor não será problema. PEDRO: — Tem certeza? Porque eu conheço aquela teimosia. Ela pode atrapalhar. E estragar os seus planos.
TENÓRIO bate a mão sobre a mesa. O som ecoa pelo escritório. PEDRO pra o coronel com bastante raiva.
TENÓRIO: — Eu disse que ela não será problema!
PEDRO fica em silêncio. TENÓRIO respira fundo.
TENÓRIO: — Eu criei aquela menina. Conheço cada passo. Cada pensamento. Cada mania. E se ela tentar interferir… Eu mesmo resolvo. Você entendeu, Pedro?
PEDRO observa o coronel. Percebe o tom ameaçador. PEDRO: — Então o coronel está disposto a tudo. TENÓRIO: — A absolutamente tudo. PEDRO: — Nesse caso… Pode considerar o serviço feito.
TENÓRIO apenas concorda com a cabeça. PEDRO caminha até a porta. Antes de sair… se volta para o coronel. TENÓRIO continua o encarando friamente.
PEDRO: — Jerônimo Gouveia nem imagina que a morte já está no encalço dele. E ele não tem escapatória.
PEDRO sai. A porta se fecha. O silêncio retorna ao escritório. TENÓRIO permanece sozinho. Imóvel. O olhar perdido pela janela. Então um sorriso cruel surge lentamente em seus lábios.
TENÓRIO (sussurrando): — Você devia ter ficado longe da Ferreira Lemos, Jerônimo… Devia ter ido embora enquanto ainda podia. Mas você sempre foi teimoso.
O sorriso cresce. Mais sombrio. Mais perigoso.
TENÓRIO: — Agora é tarde demais.bVocê já é um homem morto. E o melhor é que você nem sabe ainda.
TENÓRIO pega o copo de conhaque. Bebe um gole. Sem desviar o olhar da imensidão das terras.
TENÓRIO: — E não existe ninguém em Tanhanhem capaz de salvar você. Nem mesmo a Linda FLOR.
O vilão continua sorrindo. Enquanto a câmera se afasta lentamente. Um sorriso surge em seu rosto. 🌴
CENA 5. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO 3 SALUSTIANA — QUARTO DE MARIA DO CÉU — NOITE A lua ilumina fracamente o pequeno quarto. MARIA DO CÉU está deitada na cama. Os olhos abertos. Fixos no teto. Mas sua mente está longe. Imagens de JERÔNIMO e LINDA FLOR se beijando passam por sua cabeça. A felicidade dos dois. O fracasso de seu plano. Seu semblante se contorce de ódio. Ela se senta bruscamente na cama. Respira fundo. Abre a gaveta do criado-mudo. De lá, retira um jornal já amassado. Na capa, uma foto de LINDA FLOR sorrindo. A manchete fala sobre a futura escola para as crianças de TANHANHEM. Maria do Céu encara a imagem.vOs olhos brilham de forma perturbadora. O ódio está a consumindo.
MARIA DO CÉU: — Olha só você… A santa de Tanhanhem. A queridinha de todo mundo.
Ela aperta o jornal entre os dedos. A raiva aumenta.
MARIA DO CÉU: — Tudo sempre foi você. Sempre.
Sem pensar duas vezes… MARIA DO CÉU começa a rasgar o jornal. Uma vez. Outra. E mais outra. Os pedaços caem pelo chão. A vilã começa a sorrir.
MARIA DO CÉU: — É assim que você devia ficar. Destruída. Sem nada. Sem ninguém. Sua infeliz.
MARIA DO CÉU joga os pedaços rasgados sobre a cama. Observa a fotografia despedaçada. Um sorriso cruel surge em seus lábios. Um sorriso bastante perturbador.
MARIA DO CÉU: — É isso que você merece, Linda Flor. A felicidade nunca foi feita pra gente como você. MARIA DO CÉU se levanta. Vai lentamente até a janela aberta. O vento da noite balança seus cabelos. Ela observa a lua iluminando TANHANHEM. Seu olhar se torna cada vez mais sombrio. O sorriso dela é vazio.
MARIA DO CÉU: — Você pode ter vencido uma batalha… Mas essa guerra ainda não acabou.
Ela fecha os olhos por um instante. Depois sorri.
MARIA DO CÉU: — Eu não vou desistir. Nunca. Enquanto Jerônimo não for meu… Você não vai ter paz. Nem por um único dia. Você não merece o amor dele.
A vilã segura o peitoril da janela. Com força.
MARIA DO CÉU: — Nem que eu precise arrancar você do meu caminho. Nem que eu precise acabar com tudo.
Ela começa a rir. Uma risada baixa. Fria. Sórdida.
MARIA DO CÉU: — Engraçado… Todo mundo diz que eu deixei de ser beata. Que eu abandonei a fé. Mas ninguém entende. Ninguém entende a verdade. (pausa) Eu continuo cumprindo a vontade de Deus. Porque Jerônimo nasceu para ser meu. E sempre será.
A risada aumenta. Mais alta. Mais doentia.
MARIA DO CÉU: — E quem ousar ficar entre nós... Vai pagar caro. Muito caro. Principalmente Linda Flor.
A câmera fecha lentamente em seu rosto. Os olhos tomados pela obsessão. Pela inveja. Pela loucura. Enquanto sua risada ecoa pela noite de TANHANHEM. 🌴
CENA 6. INTERIOR — SOBRADO DE AURELIANO PRADO — SALA DE JANTAR — MANHÃ Amanhece. A mesa do café da manhã está posta. AURELIANO toma seu café. CONSTÂNCIA está sentada à mesa estranhamente calada. Algo raro. Muito raro. AURELIANO observa a esposa com desconfiança. Nesse momento… BEATRIZ entra e se senta à mesa. Imediatamente CONSTÂNCIA lança um olhar severo para a filha. O clima fica pesado. Tensão no ar.
CONSTÂNCIA: — Posso saber onde você estava ontem à noite? Do jeito que você saiu daqui devia ser importante.
BEATRIZ pega uma xícara. Antes mesmo que consiga responder CONSTÂNCIA continua bem esnobe….
CONSTÂNCIA: — Não precisa dizer nada. Eu já sei. Foi atrás daquela gentinha biscoiteira. João Miguel.
BEATRIZ fecha a expressão. BEATRIZ: — Mãe… Chega. Eu já estou cansada de ouvir a senhora falar do João Miguel dessa forma. AURELIANO: — C-C-Con... Constância… V-v-você tá passando dos limites. O João Miguel é um bom rapaz.
CONSTÂNCIA revira os olhos.
CONSTÂNCIA: — Lá vem você também. Defendendo aquele feirante. O que eu disse não é nada demais. BEATRIZ: — Não é questão de defender. É questão de respeito. A senhora foi racista com ele.
AURELIANO abaixa a cabeça. Constrangido. CONSTÂNCIA se levanta da mesa. Escandalizada.
CONSTÂNCIA: — Racista?! Eu?! BEATRIZ: — Sim. A senhora. E já passou da hora de admitir isso. Você não é melhor que ninguém não. CONSTÂNCIA: — Eu não acredito no que estou ouvindo! Vocês perderam completamente o juízo!
CONSTÂNCIA começa a andar pela sala. Gesticulando exageradamente. BEATRIZ e AURELIANO se olham.
CONSTÂNCIA: — Eu só estou tentando proteger minha filha! Nós somos uma família tradicional! Temos posição! Prestígio!bEstamos acima desse tipo de gente!
BEATRIZ se levanta imediatamente. BEATRIZ: — Não! Ninguém está acima de ninguém! Dinheiro não torna ninguém melhor que os outros! CONSTÂNCIA: — Torna, sim!
BEATRIZ fica indignada.
BEATRIZ: — É exatamente por pensar assim que a senhora está ficando cada vez mais sozinha! AURELIANO: — B-B-Beatriz… C-c-calma... CONSTÂNCIA: — Não!bDeixa ela falar! Já que resolveu me enfrentar! Agora eu espero que você diga tudo.
BEATRIZ encara a mãe. Sem medo.
BEATRIZ: — O João Miguel é um homem honesto. Trabalhador.bDigno. Tem muito mais caráter que muita gente rica dessa cidade. Inclusive da senhora. CONSTÂNCIA: — Eu não vou admitir esse namoro! Está me ouvindo?! Não vou! Se você insistir em ficar com aquele feirante… Eu tiro todos os seus privilégios!
AURELIANO arregala os olhos.
AURELIANO: — C-C-Con... Constância! P-p-pelo amor de Deus! O que é que você acha que está fazendo? CONSTÂNCIA: — Eu estou falando sério! Sem mesada! Sem vestidos! Sem festas! Sem nada! É isso que quer?
BEATRIZ dá uma risada incrédula. BEATRIZ: — A senhora acha mesmo que pode comprar minha felicidade? Eu sou tão previsível assim, mãe?
CONSTÂNCIA permanece em silêncio.
BEATRIZ: — Pois eu tenho uma notícia. Eu não preciso do dinheiro de vocês. Nem dos vestidos. Nem dos privilégios. O que eu preciso… É viver minha vida.
Os olhos de CONSTÂNCIA se arregalam.
BEATRIZ: — E não vai ser uma dondoca preconceituosa que vai decidir quem eu posso amar. Entendeu? CONSTÂNCIA: — O quê?! Repete se tiver coragem. BEATRIZ: — Foi exatamente o que a senhora ouviu.
BEATRIZ dá as costas. Sai da sala. BATENDO A PORTA COM FORÇA. O barulho ecoa pelo sobrado. Silêncio. CONSTÂNCIA está vermelha de raiva. AURELIANO observa a porta fechada. E sem perceber… Esboça um pequeno sorriso. Um sorriso de orgulho. CONSTÂNCIA vê. E fica ainda mais furiosa.
CONSTÂNCIA: — Você está sorrindo?! AURELIANO: — N-N-Não… Eu…
CONSTÂNCIA pega um copo cheio de suco.
AURELIANO: —;C-Con... Constância…;N-N-Não faz isso… Eu sei que você está chateada. Não faz isso.
Tarde demais. Ela joga todo o suco sobre a cabeça do marido. AURELIANO fica completamente molhado. Paralisado. Sem reação. CONSTÂNCIA o encara.
CONSTÂNCIA: — Pois fique sabendo… Minha filha não vai namorar nenhuma gentinha biscoiteira! NENHUMA!
CONSTÂNCIA sai pisando duro. Deixando AURELIANO sozinho. Molhado. Atônito. Ele suspira. Passa a mão no rosto. E murmura para si mesmo:
AURELIANO: — S-S-Santo Deus… Q-Que mulher…
AURELIANO sorri da situação constrangedora. Ao mesmo tempo ele sente enorme orgulho de sua filha. 🌴
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CENA 7. INTERIOR — BORDEL DA LUZ VERMELHA — QUARTO DE ROSA — NOITE
ROSA está diante do espelho, vestindo um roupão simples. O brilho de seus olhos denuncia o cansaço emocional dos últimos dias. A porta do quarto se abre lentamente. DONA CANDINHA entra e fecha a porta.
DONA CANDINHA: — Posso entrar ou vou ter que pedir licença? Pelo visto você está bastante distante daqui.
ROSAn(esboçando um sorriso fraco): — A senhora nunca precisou pedir licença. A senhora sabe disso.
DONA CANDINHA se aproxima e observa Rosa com atenção. Ela e ROSA ficam se encarando em silêncio.
DONA CANDINHA: — E então... como é que você tá?
ROSA: — Já estive melhor.
DONA CANDINHA: — Eu soube do escândalo.
ROSA: — A cidade inteira soube.
DONA CANDINHA: — Pois eu vou te dizer uma coisa. Zeca Batista jamais seria capaz de fazer uma sujeira dessas. Eu conheço aquele homem há muitos anos.
ROSA baixa os olhos, envergonhada.
ROSA: — Eu sei. Agora eu sei. Mas por algumas horas... eu duvidei dele. Eu não deveria ter feito isso.
DONA CANDINHA: — O medo faz isso com a gente.
ROSA: — Fez comigo. Eu olhei aquelas fotos e deixei a raiva falar mais alto. Principalmente quando vi a Nina.
DONA CANDINHA: — E o coração?
ROSA: — O coração nunca acreditou.
DONA CANDINHA acaricia o rosto de ROSA com ternura. Ela olha ROSA de um jeito bem fraternal.
DONA CANDINHA: — Ainda bem.
ROSA: — Nina foi longe demais dessa vez.
DONA CANDINHA: — Longe demais mesmo. E eu já decidi. Vou expulsar aquela cobra daqui. Eu já decidi.
ROSA: — Não!
DONA CANDINHA estranha a reação de ROSA.
DONA CANDINHA: — Como é? Eu ouvi direito?
ROSA: — Pelo menos por enquanto, não.
DONA CANDINHA: — Você enlouqueceu, Rosa?
ROSA: — Eu preciso descobrir quem tá por trás disso tudo. Eu quero saber de quem veio a ordem para fazer isso com o Zeca. A Nina não planejaria isso sozinha.
DONA CANDINHA: — E você acha que tem mais alguém envolvido? Isso é algo bastante sério, Rosa.
ROSA: — Tenho certeza.
DONA CANDINHA: — Por quê?
ROSA: — Porque Nina é cruel... mas ela nunca foi inteligente o suficiente pra montar uma armadilha desse tamanho. E convenhamos ela é bastante limitada.
DONA CANDINHA fica pensativa.
DONA CANDINHA: — Você acha que tem gente poderosa nessa história? Eu te conheço bem, Rosa.
ROSA: — Acho. Na verdade eu tenho certeza.
DONA CANDINHA: — Então tome cuidado.
ROSA: — Eu vou tomar.
DONA CANDINHA: — Tem gente nessa cidade que sorri de dia e destrói vidas durante a noite. Você sabe quem.
ROSA: — Eu sei. Mas não posso deixar o nome do Zeca ser destruído desse jeito. A verdade precisa aparecer.
DONA CANDINHA: — Isso que eu admiro em você.
ROSA sorri de canto.
ROSA: — Pelo menos uma coisa boa aconteceu.
DONA CANDINHA: — E o que foi?
ROSA: — Eu dei um tapa bem dado na cara da Nina.
DONA CANDINHA arregala os olhos e depois cai na gargalhada. Ela e ROSA se olham com cumplicidade.
DONA CANDINHA: — Você fez o quê?
ROSA: — Foi exatamente isso que a senhora ouviu.
DONA CANDINHA (rindo): — Ah, minha filha... esse tapa tava atrasado fazia tempos. Ela mereceu cada segundo. E como mereceu. Disso eu tenho certeza.
As duas compartilham um sorriso cúmplice.
DONA CANDINHA: — Mas não se engane. Nina é perigosa. Ela vai fazer de tudo para se vingar de você.
ROSA: — Eu sei. E eu estou preparada.
DONA CANDINHA: — Ela não tem nada a perder.
ROSA: — Então ela encontrou alguém disposto a enfrentá-la. E eu não vou parar até saber a verdade.
DONA CANDINHA sorri orgulhosa.
DONA CANDINHA: — Agora sim eu tô vendo a Rosa que eu conheço. E eu admiro a sua coragem.
ROSA: — E eu só tô começando.
DONA CANDINHA e ROSA trocam um olhar firme. Pela primeira vez desde o escândalo, Rosa parece determinada e pronta para a batalha que está por vir.
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CENA 8. INTERIOR — RÁDIO “A VOZ DA TERRA” — CORREDOR — NOITE
O corredor da rádio está silencioso. Zeca Batista sai do estúdio com os ombros pesados depois de mais um programa marcado pelo escândalo que tomou conta da cidade. Quando levanta os olhos, vê Aureliano Prado vindo em sua direção. Os dois homens param frente a frente. O silêncio que fica entre eles é ensurdecedor.
ZECA BATISTA: — Eu sabia que o senhor ia acabar aparecendo. Depois de todos esses escândalo.
AURELIANO (evitando o olhar por um instante): — E-eu precisava conversar com você, Zeca. A cidade inteira tá falando desse escândalo. E você sabe disso.
ZECA BATISTA: — E a cidade inteira já me condenou sem ouvir uma palavra da minha defesa.
AURELIANO: — Você sabe como o povo é. Quando vê uma foto dessas… Eles só olham o que está na frente.
ZECA BATISTA: — Eu sou inocente, prefeito. Tudo isso foi armado. Foi uma armadilha. E você sabe de quem.
AURELIANO encara ZECA BATISTA bem sério.
AURELIANO: — Você realmente acredita que o coronel Tenório está por trás disso? Isso seria possível?
ZECA BATISTA: — Não acredito. Tenho certeza.
AURELIANO: — Mas isso é uma acusação muito séria.
ZECA BATISTA: — Mais séria é a vida de um homem ser destruída da noite pro dia. Mais séria é uma cidade inteira ser manipulada por medo. Você não acha?
AURELIANO observa ZECA BATISTA atentamente.
AURELIANO: — E-eu conheço você há muitos anos, Zeca. Nunca ouvi falar de uma atitude dessas vindo de você. Eu sabia que tinha algo errado nessa história.
ZECA BATISTA: — Porque ela nunca existiu.
AURELIANO: — Então me explica uma coisa... Como essa tal de Nina entrou nessa história? Eu quero saber.
ZECA BATISTA: — É exatamente isso que eu preciso descobrir. É isso que não está se encaixando.
AURELIANO: — Uma moça do Bordel da Luz Vermelha envolvida num escândalo político... isso não parece coincidência. Você tem que concordar comigo, Zeca.
ZECA BATISTA: — Também não acho.
ZECA BATISTA fica bastante pensativo.
AURELIANO: — Você acha que ela fez isso por dinheiro? Ela faria isso só para sujar a sua imagem?
ZECA BATISTA: — Talvez. Talvez por vingança. Talvez por alguém ter prometido algo em troca. Eu ainda não sei. Por isso que eu preciso descobrir a verdade.
AURELIANO: — Mas você acredita que existe alguém por trás dela. Talvez o Tenório Ferreira Lemos. É isso?
ZECA BATISTA: — Existe. E quando eu descobrir quem é, a verdade vai aparecer. Eu tenho certeza disso.
AURELIANO cruza os braços, preocupado.
AURELIANO: — Você tem ideia do tamanho da guerra em que está entrando? Isso não vai ter volta, Zeca.
ZECA BATISTA: — Tenho. Pode acreditar nisso.
AURELIANO: — Porque se o que você está dizendo for verdade... Tenório não vai parar por aqui.
ZECA BATISTA: — Eu sei.
AURELIANO: — Ele vai tentar destruir sua candidatura. Sua reputação. Sua vida. Ele é um homem perigoso.
AURELIANO fica bastante nervoso.
ZECA BATISTA: — Já começou a fazer isso.
AURELIANO: — Então por que continuar?
ZECA BATISTA encara o prefeito com firmeza.
ZECA BATISTA: — Porque se eu desistir agora, ele vence. E eu não posso deixar isso acontecer jamais.
AURELIANO: — E-eu admiro essa coragem.
ZECA BATISTA: — Não é coragem, prefeito. É necessidade. Tanhanhem precisa de alguém assim.
Alguém precisa enfrentar homens como Tenório Ferreira Lemos. Alguém precisa mostrar que Tanhanhem não pertence a uma única família.
AURELIANO esboça um pequeno sorriso.
AURELIANO: — Você continua falando como um candidato. Como um homem que se recusa desistir.
ZECA BATISTA: — Porque continuo acreditando no povo desta cidade. E isso é algo que jamais vai mudar.
AURELIANO: — Mesmo depois de tudo que aconteceu hoje? Do povo duvidando da sua inocência, Zeca?
ZECA BATISTA: — Mesmo depois de tudo.
AURELIANO: — Eles te chamaram de hipócrita.
ZECA BATISTA fica ainda. Que determinado.
ZECA BATISTA: — Chamaram.bE ainda assim eu vou continuar lutando por eles. Sempre vai ser assim.
AURELIANO: — Você é mais teimoso do que eu imaginava. O Tenório agora tem um rival a altura.
ZECA BATISTA: — E o senhor é mais observador do que gosta de demonstrar. E isso é bastante inteligente.
Os dois sorriem discretamente.
AURELIANO: — Só tome cuidado. Porque eu conheço Tenório Ferreira Lemos. E quando ele se sente ameaçado... ele se torna ainda mais perigoso.
ZECA BATISTA: — Então é melhor ele se acostumar. Porque eu não vou parar. Eu nunca vou desistir.
ZECA BATISTA estende a mão. AURELIANO aperta.
AURELIANO: — Boa sorte, Zeca..
ZECA BATISTA: — Não preciso de sorte. Preciso da verdade. Eu jamais vou desistir de Tanhanhem. Nunca.
AURELIANO' o observa partir pelo corredor. No rosto do prefeito há preocupação, mas também admiração. ZECA BATISTA segue caminhando sozinho enquanto a sombra da guerra contra TENÓRIO parece crescer cada vez mais sobre TANHANHEM.
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CENA 5. INTERIOR — IGREJA DE TANHANHEM — NOITE
ANOITECE. A igreja está silenciosa. A luz das velas ilumina suavemente o altar. PADRE BELARMINO acaba de sair do confessionário. Enquanto organiza alguns objetos litúrgicos, percebe duas figuras caminhando em sua direção. JERÔNIMO e LINDA FLOR. De mãos dadas. Os dois carregam um brilho impossível de esconder. O sacerdote sorri ao ver eles.
PADRE BELARMINO: — Ora, ora… Se eu não conhecesse vocês desde pequenos, diria que estão escondendo alguma coisa. Oi será que estão?
JERÔNIMO e LINDA FLOR trocam um olhar cúmplice.
LINDA FLOR: — Acho que estamos mesmo.
JERÔNIMO: — Mas não por muito tempo.
PADRE BELARMINO: — Então me contem. O que traz vocês à casa de Deus com essa felicidade que dá pra enxergar da porta da igreja? Podem me dizer?
LINDA FLOR aperta a mão de JERÔNIMO. Ele sorri.
JERÔNIMO: — Nós queremos nos casar.
O sorriso do padre aumenta imediatamente.
PADRE BELARMINO: — Graças a Deus!
LINDA FLOR: — E viemos saber se existe alguma data disponível. Eu e Jerônimo não queremos esperar.
PADRE BELARMINO: — Disponível existe. E eu posso dizer uma coisa? Será um enorme prazer celebrar esse casamento. Eu vi por tudo que vocês dois passaram.
LINDA FLOR se emociona. JERÔNIMO sorri.
LINDA FLOR: — Obrigada, padre.
PADRE BELARMINO: — Eu estava começando a achar que vocês iam me deixar esperando para sempre.
Os três riem. Depois o sacerdote fica mais reflexivo.
PADRE BELARMINO: — Existe uma coisa que você merece saber, Jerônimo. Algo que nunca disse a você.
JERÔNIMO: — O que foi?
PADRE BELARMINO: — Depois daquele incêndio...
Quando você deixou Tanhanhem… Fui eu quem enterrou seu pai. Não poderia deixar ele daquele jeito.
Silêncio. JERÔNIMO absorve aquelas palavras.
PADRE BELARMINO: — Xavier descansa nas terras onde ficava a antiga casa de vocês. Que hoje infelizmente pertence as terras do coronel Tenório. E você sabe.
LINDA FLOR: — Jerônimo...
JERÔNIMO: — Obrigado, padre. Obrigado por não deixar meu pai ser esquecido. Isso foi muito gentil.
PADRE BELARMINO: — Homens como Xavier não são esquecidos. São homens que morreram fazendo o certo.
JERÔNIMO abaixa a cabeça por um instante. Em sinal de respeito. Depois volta a olhar para LINDA FLOR.
JERÔNIMO: — Agora tudo o que eu mais quero...É construir uma vida ao lado da Linda Flor.
LINDA FLOR: — E eu ao lado dele.
PADRE BELARMINO observa os dois. Emocionado.
PADRE BELARMINO: — Vocês sabem de uma coisa?
Desde crianças eu tinha certeza que isso aconteceria.
Jerônimo e Linda Flor sorriem. Vocês nasceram um para o outro. A vida tentou separar vocês. Vieram a distância… A dor… As mentiras… Mas o amor verdadeiro sabe esperar. E isso é o que importa.
LINDA FLOR se emociona.
LINDA FLOR: — Eu nunca consegui esquecer dele.
JERÔNIMO: — Nem eu dela.
O sacerdote sorri. Mas logo fica sério.
PADRE BELARMINO: — Só peço uma coisa. Tomem cuidado. Maria do Céu está cada vez mais consumida pela própria obsessão. Ela acha que te ama Jerônimo.
LINDA FLOR troca um olhar com JERÔNIMO.
LINDA FLOR: — A gente sabe, Padre Belarmino.
PADRE BELARMINO: — E pessoas assim podem acabar fazendo coisas terríveis. E a Maria do Céu não é diferente. Ela está cada vez mais perdida nessa obsessão.
JERÔNIMO concorda.
JERÔNIMO: — Nós estamos atentos.
LINDA FLOR: — E eu não vou permitir que Maria do Céu continue controlando nossas vidas. Ela já causou sofrimento demais. E isso não vai mais acontecer.
PADRE BELARMINO assente. Satisfeito.
PADRE BELARMINO: — Essa é a atitude certa.
Ele coloca uma mão sobre o ombro de JERÔNIMO. Outra sobre o de Linda Flor. Ele os encara.
PADRE BELARMINO: — Vocês ainda enfrentarão dificuldades. Mas também terão muitas alegrias.
Porque Deus não abandona quem ama de verdade.
JERÔNIMO e LINDA FLOR se olham. Apaixonados. Como se o resto do mundo deixasse de existir.
PADRE BELARMINO abre os braços. Faz o sinal da cruz sobre os dois. Eles fecham os olhos.
PADRE BELARMINO: — Que Deus abençoe essa união.
Que Ele proteja o amor de vocês. E que nunca permita que a maldade seja maior que a esperança.
JERÔNIMO: — Amém.
LINDA FLOR: — Amém.
Os dois abrem os olhos e sorriem. De mãos dadas.
Enquanto os sinos da igreja começam a tocar ao longe.
A câmera se afasta lentamente. Mostrando os três diante do altar. Como se aquele momento estivesse sendo testemunhado pelo próprio destino.
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CENA 6. INTERIOR — SALÃO DE BELEZA DE FILÓ — NOITE
O salão já está praticamente vazio. FILÓ guarda alguns produtos enquanto se prepara para fechar as portas. O sino da entrada toca. A porta se abre com força.
CONSTÂNCIA entra usando um vestido elegante e carregando toda sua costumeira dramaticidade.
FILÓ: — Olha só quem resolveu aparecer.
CONSTÂNCIA: — Nem começa, Filó.
FILÓ: — Eu só tô achando curioso. Da última vez que saiu daqui, você jurou que nunca mais pisaria no meu salão. Mas eu sabia que você acabaria voltando.
CONSTÂNCIA: — Isso é passado. Eu vim porque preciso da sua ajuda. Você é a única pessoa que eu confio.
FILÓ (prendendo o riso): — E eu fico preocupada sempre que você fala isso. O que aconteceu agora?
CONSTÂNCIA suspira de forma teatral.
CONSTÂNCIA: — É a Beatriz. Ela enlouqueceu completamente! Aquele menino está bem difícil.
FILÓ: — Ouvi dizer que saiu de casa.
CONSTÂNCIA: — E tudo por culpa daquela gentinha biscoiteira! Mas dessa vez ela foi longe demais, Filó.
FILÓ: — João Miguel?
CONSTÂNCIA: — Quem mais seria?
FILÓ fecha lentamente uma gaveta.
FILÓ: — Constância... você continua chamando o rapaz desse jeito? Você realmente nu cá vai mudar mesmo.
CONSTÂNCIA: — E como eu deveria chamar?
FILÓ: — Pelo nome dele seria um bom começo.
CONSTÂNCIA: — Eu não acredito que você também vai ficar do lado dele! Você deveria ficar do meu lado.
FILÓ: — Eu tô do lado da sua filha.
CONSTÂNCIA revira os olhos.
CONSTÂNCIA: — Minha filha abandonou uma vida de privilégios! Os melhores vestidos! Os melhores bailes! As melhores companhias! Isso é inadmissível, Filó.
FILÓ: — E escolheu ficar perto de quem ama.
CONSTÂNCIA: — Isso não é amor!
FILÓ: — E quem decidiu isso?
CONSTÂNCIA: — Eu sou a mãe dela!
FILÓ: — Pois é justamente por isso que devia escutá-la.
CONSTÂNCIA começa a andar pelo salão nervosamente.
CONSTÂNCIA: — Você não entende. A Beatriz nasceu para frequentar a alta sociedade. Ser admirada. Vista.
FILÓ: — Acho que a Beatriz nasceu para ser feliz.
CONSTÂNCIA para abruptamente.
CONSTÂNCIA: — Eu vim aqui pedir ajuda!
FILÓ: — E eu tô ajudando.
CONSTÂNCIA: — Não, não está!
FILÓ: — Estou dizendo a verdade que ninguém tem coragem de dizer. E no fundo você sabe a verdade.
CONSTÂNCIA cruza os braços.
CONSTÂNCIA: — Então diga. Agora eu quero ouvir.
FILÓ: — Você tá empurrando sua filha para longe.
CONSTÂNCIA: — Isso é um absurdo. Tudo isso só aconteceu porque aquele biscoiteiro apareceu na vida dela. Mas ninguém consegue entender justamente isso.
FILÓ: — Não. Isso aconteceu porque você decidiu controlar a vida dela. O seu orgulho não deixa você ver. CONSTÂNCIA: — Eu só quero o melhor para minha filha! E aquele feirante não é o melhor para ela.
FILÓ: — O melhor segundo quem?
CONSTÂNCIA fica sem resposta por um instante.
FILÓ: — Você acha que riqueza compra felicidade.
CONSTÂNCIA: — E não compra conforto?
FILÓ: — Conforto sim. Amor não.
CONSTÂNCIA aperta a bolsa com força.
CONSTÂNCIA: — Então você não vai me ajudar?
FILÓ: — A separar os dois? Não.
CONSTÂNCIA: — Filó! Você não pode estar falando sério. A Beatriz merece coisa melhor que aquilo.
FILÓ: — Beatriz e João Miguel se amam.
CONSTÂNCIA: — Eu não aceito isso!
FILÓ: — Aceitar ou não aceitar não muda a realidade.
CONSTÂNCIA: — Você está contra mim.
FILÓ: — Pela primeira vez na vida, eu tô tentando abrir seus olhos. E você não consegue perceber a verdade.
CONSTÂNCIA respira fundo, já à beira de outro escândalo. FILÓ olha para sua amiga bem mais séria.
CONSTÂNCIA: — Pois eu vou acabar com esse namoro!
FILÓ: — E depois? O que é que vai acontecer?
CONSTÂNCIA: — Depois minha filha vai voltar para casa. E ela nunca mais vai ver aquela feirante biscoiteiro.
FILÓ: — Ou talvez nunca mais volte.
CONSTÂNCIA fica atingida pela frase, mas logo recompõe a pose. Ela e FILÓ ficam se encarando.
CONSTÂNCIA: — Isso não vai acontecer.
FILÓ: — Tomara. Para o seu próprio bem, Constância.
CONSTÂNCIA: — Eu sou Constância Junqueira Prado!
FILÓ (rindo): — Isso eu sei. A cidade inteira sabe.
CONSTÂNCIA: — E ninguém desafia uma Junqueira Prado! Principalmente por eu ser a primeira dama.
FILÓ: — Parece que a Beatriz tá desafiando.
CONSTÂNCIA fica vermelha de raiva.
CONSTÂNCIA: — Você vai ver! Eu vou acabar com esse namoro! E a minha filha ainda vai me agradecer.
FILÓ: — E eu vou continuar torcendo por eles.
CONSTÂNCIA (indignada): — Boa noite, Filó!
FILÓ: — Boa sorte, Constância.
A primeira-dama sai batendo a porta do salão.
FILÓ observa a amiga desaparecer rua afora. Então balança a cabeça e sorri d eum jeito bem divertido.
FILÓ: — Pra quem quer controlar a vida dos outros... essa mulher não consegue controlar nem o próprio gênio. E isso ainda vai muito longe. Eu aposto.
FILÓ apaga as luzes do salão.
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CENA 3. INTERIOR — ANTIGA MERCENÁRIA DE TANHANHEM — FIM DE TARDE
O sol desaparece lentamente no horizonte. ZÉ BENTO empurra as antigas portas de madeira da mercearia.
Uma nuvem de poeira toma conta do ambiente. Ele tosse levemente. Observa o local abandonado. Os olhos brilham de esperança. Ele respira fundo.
ZÉ BENTO: — É... tá caído. (pausa) Mas ainda tem jeito.
ZÉ BENTO caminha pelo interior do imóvel. Passa a mão sobre um balcão antigo. Sorri discretamente.
Nesse momento, uma voz conhecida surge atrás dele.
CARLOTA: — Sempre tão sonhador.
ZÉ BENTO se vira. CARLOTA está parada na entrada.
Elegante. Impecável. Passando o dedo pelo batente coberto de poeira. Ela e ZÉ BENTO se encaram.
ZÉ BENTO: —;O que você tá fazendo aqui, Carlota?
CARLOTA observa a sujeira em seu dedo com desprezo.
CARLOTA: — Você realmente acreditou que conseguiria dar um passo nessa cidade sem que eu soubesse?
ZÉ BENTO: — Minha vida não é da sua conta.
CARLOTA: — Engraçado. Porque parece que ela sempre acaba sendo. Você nunca vai se livrar de mim, Zé Bento.
Ela entra na mercearia. Observando tudo ao redor.
CARLOTA: — Então é aqui que você pretende recomeçar? Olha só a sujeira desse lugar imundo.
ZÉ BENTO: — Pretendo. Mas eu não t3 devo satisfação.
CARLOTA: — Que comovente.
ZÉ BENTO fecha a expressão.
ZÉ BENTO: — Vá direto ao assunto.
CARLOTA para diante dele.
CARLOTA: — Já sei da Helena.
ZÉ BENTO: — E daí? O que você tem haver com isso?
CARLOTA: — E daí que eu não gostei. Seu estúpido.
ZÉ BENTO: — Isso é problema seu.
CARLOTA: — Você beijou ela.
ZÉ BENTO: — Beijei. E isso não é da sua conta.
CARLOTA sente o golpe. Mas tenta esconder.
CARLOTA: — Depois de tudo...
ZÉ BENTO: — Depois de tudo o quê?
Ela se aproxima. Os olhos começam a marejar de raiva.
CARLOTA: — É a segunda vez.
ZÉ BENTO: — Segunda vez o quê?
CARLOTA: — Que você me troca. Primeiro foi Maria das Dores. Agora é Helena. Por que é tão difícil me amar?
ZÉ BENTO a encara. Sem pena. Sem medo.
ZÉ BENTO: — Porque amor não nasce da força.
CARLOTA engole seco.
ZÉ BENTO: — Você destruiu minha vida.
CARLOTA: —Eu te amava!
ZÉ BENTO: — Você ajudou a destruir Maria das Dores.
CARLOTA: — Não! Não foi bem assim, Zé Bento.
ZÉ BENTO: — Você e Tenório roubaram minha filha.
CARLOTA: — Linda Flor teve uma vida melhor!
ZÉ BENTO: — Mentira!
A voz dele ecoa pela mercearia vazia.
ZÉ BENTO: — Vocês me prenderam quinze anos por um crime que eu não cometi! Ou você já esqueceu?
CARLOTA permanece imóvel.
ZÉ BENTO: — E nós sabemos quem matou o Xavier.
O olhar de CARLOTA vacila. Por apenas um segundo.
ZÉ BENTO (firme): — Tenório.
Silêncio. Pesado. Incômodo.
CARLOTA: — Eu fiz tudo isso por amor.
ZÉ BENTO (rindo): — Isso não é amor.
CARLOTA: — É sim!
ZÉ BENTO: — Não. Isso é obsessão. É doença.
CARLOTA sente a palavra como uma facada.
CARLOTA: — Você não sabe o que está dizendo.
ZÉ BENTO: — Sei perfeitamente.
CARLOTA: — Eu sempre lutei por você.
ZÉ BENTO: — E destruiu tudo o que encontrou pela frente. Se isso for amor eu não quero isso.
CARLOTA se aproxima ainda mais.
CARLOTA: — E essa Helena? Você acha que ela é melhor do que eu? Isso não pode ser verdade, Zé Bento.
ZÉ BENTO: — Muito melhor.
A resposta vem imediata. CARLOTA fica paralisada.
ZÉ BENTO: — Helena tem algo que você nunca teve.
CARLOTA: — E o que seria?
ZÉ BENTO: — Coração.
A vilã fecha os punhos contendo a sua raiva.
ZÉ BENTO: — Ela não precisa destruir ninguém pra ser feliz. E eu me apaixonei de verdade por ela.
CARLOTA: — Cale a boca!
ZÉ BENTO: — Não. Você não chega aos pés dela.
CARLOTA está consumida pelo ódio.
CARLOTA: — Você vai se arrepender dessas palavras.
ZÉ BENTO: — Não me arrependo da verdade.
CARLOTA: — Então escute bem. Eu não vou deixar você ser feliz com a Helena. Aquela escola não vai sair do papel. E esse armazém… Nunca vai significar nada para Tanhanhem. Você está me ouvindo, Zé Bento?
ZÉ BENTO sustenta seu olhar.
ZÉ BENTO: — Nada que venha de você merece ser levado a sério. E eu não tenho medo de você, Carlota.
CARLOTA fica sem palavras. A raiva faz ela tremer.
CARLOTA: — Você ainda vai implorar pelo meu perdão.
ZÉ BENTO: — Antes eu morro.
Os olhos dos dois se cruzam. Uma guerra antiga. Mal resolvida. CARLOTA se vira. Ela encara ZÉ BENTO.
CARLOTA: — Isso não acabou.
ZÉ BENTO: — Pra mim acabou há muitos anos.
CARLOTA vai embora. A porta bate. O silêncio toma conta da mercearia. ZÉ BENTO permanece sozinho.
Respira fundo. Leva a mão ao peito. Retira a medalha.
A foto de MARIA DAS DORES e da pequena LINDA FLOR. Ele sorri emocionado. O silêncio é confortável.
ZÉ BENTO: — Tá vendo, Maria? Eu quase desisti.
Mas não vou mais deixar ninguém decidir minha vida.
Olha ao redor. Para as paredes velhas. Para o balcão abandonado. Para o futuro. Ele sente muita esperança.
ZÉ BENTO: — Esse armazém vai abrir. A escola vai acontecer. E eu vou recuperar tudo que me foi tirado.
Uma lágrima escorre. Mas agora existe esperança em seu olhar. Os olhos de ZÉ BENTO ficam marejados.
ZÉ BENTO: — Nem que seja a última coisa que eu faça.
A câmera se afasta lentamente. Mostrando o homem sozinho dentro da velha mercearia. E, pela primeira vez em muitos anos, pronto para recomeçar.
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CENA 4. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO E SALUSTIANA — SALA — FIM DE TARDE
MACÁRIO está sentado no sofá da sala. Os hematomas da surra ainda marcam seu rosto. Ele permanece perdido em pensamentos. A lembrança da humilhação sofrida nas mãos dos homens de TENÓRIO ainda dói mais que os ferimentos. Uma batida na porta. MACÁRIO ergue o olhar. Com esforço, se levanta.
Vai até a porta. Abre. Do lado de fora está EZEQUIEL. Os dois se encaram em silêncio. MACÁRIO o analisa por alguns instantes. Depois abre espaço.
MACÁRIO: — Entra.
EZEQUIEL: — Obrigado, seu Macário.
EZEQUIEL entra. Os dois seguem até a sala. EZEQUIEL senta-se. MACÁRIO permanece alguns segundos de pé observando o rapaz. Depois senta-se diante dele.
MACÁRIO: —Você é o rapaz que anda com a minha Luzia? A fofoca do povo corre por toda a cidade. EZEQUIEL: — Sou, sim senhor.
MACÁRIO: — Então é você o namorado dela.
EZEQUIEL: — Sou. Antes de qualquer coisa... eu acho que o senhor merece saber quem eu sou.
MACÁRIO permanece atento.
EZEQUIEL: — Eu sou filho de Dona Candinha. Dona do Bordel da Luz Vermelha. E eu sei que isso pode ser difícil de aceitar. Justamente porque o povo fala demais.
Nesse momento, LUZIA surge no corredor. Ela ouviu parte da conversa. O nervosismo é evidente.
LUZIA: — Pai…
MACÁRIO olha para a filha. Depois volta o olhar para EZEQUIEL. O silêncio parece durar uma eternidade.
Até que… MACÁRIO sorri. Um sorriso sincero. Surpreendendo os dois. LUZIA e EZEQUIEL se olham.
MACÁRIO: — Difícil de aceitar?
EZEQUIEL e LUZIA se encaram. Confusos.
MACÁRIO: — Eu sei muito bem quem é Dona Candinha.
EZEQUIEL (surpreso): — Sabe?
MACÁRIO: — Sei. E posso te dizer uma coisa. Ela é uma das mulheres mais generosas que já passaram por essa cidade. E ela tem todo o meu respeito. Pode acreditar.
EZEQUIEL solta o ar que estava prendendo. Aliviado.
EZEQUIEL: — O senhor não imagina o quanto eu fico feliz de ouvir isso. O senhor tirou esse peso de mim.
LUZIA: — Eu estava com medo da sua reação.
MACÁRIO: — Da minha reação?
LUZIA: — Eu sempre vi o senhor como um homem sério. Achei que talvez o preconceito de Tanhanhem tivesse influenciado o senhor de alguma forma.
MACÁRIO se levanta devagar. Vai até a filha.
Segura suas mãos com carinho. Olha profundamente para ela. Ele e LUZIA ficam se olhando intensamente.
MACÁRIO: — Minha filha… Eu jamais permitiria que o preconceito dessa cidade decidisse alguma coisa dentro do meu coração. Eu nunca vou deixar isso acontecer.
Os olhos de LUZIA ficam marejados.
MACÁRIO: — Muito menos a sua felicidade.
LUZIA: — Pai...
MACÁRIO: — A vida já machuca demais a gente.
Não vou ser eu quem vai aumentar essa dor.
LUZIA sorri emocionada. Uma lágrima escorre.
MACÁRIO enxuga delicadamente o rosto da filha.
Depois olha para EZEQUIEL. O clima fica leve.
MACÁRIO: Agora tem uma coisa que eu preciso dizer a você. E espero que você possa me entender, rapaz.
EZEQUIEL (atento): — Pode falar, seu Macário. MACÁRIO: — A única coisa que eu quero...é que você faça minha filha feliz. Isso já é o suficiente.
EZEQUIEL se levanta imediatamente. Os olhos sinceros.
EZEQUIEL: — Seu Macário… Eu jamais faria alguma coisa para magoar Luzia. Eu gosto dela de verdade. E vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra cuidar dela. Você pode confiar em mim, seu Macário.
MACÁRIO estende a mão. EZEQUIEL a aperta.
MACÁRIO: — É bom mesmo.
MACÁRIO dá uma piscadela.
MACÁRIO: —Porque se fizer minha filha sofrer....aí nós vamos ter uma conversa bem diferente. Entendido?
LUZIA ri. EZEQUIEL também.
EZEQUIEL: — Justo.
LUZIA: — Vocês dois são impossíveis.
O clima finalmente se torna leve. LUZIA abraça o pai.
MACÁRIO retribui. Mesmo sentindo dor por causa dos machucados. Ele fecha os olhos por um instante.
Emocionado. Depois observa LUZIA e EZEQUIEL juntos. Os dois jovens sorrindo. Cheios de esperança.
Macário sorri discretamente e ele respira fundo.
MACÁRIO: — Talvez ainda exista jeito pra esse mundo.
LUZIA: — Existe sim, pai.
EZEQUIEL: — Enquanto existir gente boa... sempre vai existir. E a justiça divina pode demorar, mas ela chega.
MACÁRIO assente. Pela primeira vez desde a injustiça que sofreu, um pouco de paz encontra espaço em seu coração. A câmera se afasta lentamente dos três reunidos na sala. Um raro momento de felicidade em Tanhanhem.
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TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela
CAPÍTULO 32
Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV
Abertura: https://youtu.be/CTJoSo4xVv8?is=L1yBF...
CENA 1. EXTERIOR — ARREDORES DA FAZENDA FERREIRA LEMOS — ESTRADA DE TERRA — DIA
Continuação imediata do capítulo anterior. A câmera permanece fechada no rosto de MARIA DO CÉU. O sorriso discreto desaparece aos poucos. Ela encara PEDRO com os olhos cheios de conflito.
MARIA DO CÉU: — Não...
PEDRO: — Não o quê?
MARIA DO CÉU: — Isso é loucura.
PEDRO: — Loucura é continuar acreditando que Jerônimo vai abandonar Linda Flor sozinho.
MARIA DO CÉU abaixa o olhar.
PEDRO: — Você já tentou de tudo. Mentiras. Armações.
Intrigas. E nada funcionou. Você precisa ser inteligente.
MARIA DO CÉU fica bastante pensativa.
MARIA DO CÉU: — Porque aquela maldita sempre consegue escapar. A Linda FLOR sempre consegue tudo o que ela quer. E eu estou cansada disso acontecer.
PEDRO: — Então chegou a hora de fazer diferente.
PEDRO caminha lentamente ao redor dela. Como um predador estudando sua presa. A vilã o encara.
PEDRO: — Você quer o Jerônimo?
MARIA DO CÉU: — Mais do que qualquer coisa.
PEDRO: — Então vai ter que parar de agir como uma apaixonada. E começar a agir como uma vencedora.
Os olhos de MARIA DO CÉU brilham.
MARIA DO CÉU: — E se der errado?
PEDRO: — Aí você perde Jerônimo para sempre.
A frase atinge a vilã como uma facada.
MARIA DO CÉU: — Não… Eu não vou perder.
PEDRO: — Então escolha.
O silêncio domina a estrada. MARIA DO CÉU respira fundo. O rosto endurece. Ela e PEDRO se olham.
MARIA DO CÉU: — O que você precisa de mim?
PEDRO (sorrindo): — Agora estamos conversando.
MARIA DO CÉU: — Eu quero detalhes.
PEDRO olha ao redor para se certificar de que estão sozinhos. Depois se aproxima. A vilã o encara.
PEDRO: — Primeiro vamos fazer a cidade inteira duvidar de Linda Flor. Fazer todos duvidarem dela.
MARIA DO CÉU: — Como?
PEDRO: — Uma mentira só funciona quando as pessoas querem acreditar nela. E o povo de Tanhanhem adora um escândalo. E será aí que vamos acabar com ela..
MARIA DO CÉU: — Você quer destruir a reputação dela.
PEDRO: — Exatamente.
MARIA DO CÉU: — E depois? O que vai acontecer?
PEDRO sorri friamente.
PEDRO: — Depois a gente destrói o casamento.
MARIA DO CÉU fica em silêncio. Pensativa. Perigosa.
MARIA DO CÉU: — Jerônimo vai sofrer.
PEDRO: — Desde quando isso te preocupa? Você não quer a felicidade dele. Você quer possuir ele.
MARIA DO CÉU lança um olhar mortal.
MARIA DO CÉU: — Cuidado, Pedro.
PEDRO: — Estou mentindo?
A vilã não consegue responder. O silêncio fala por ela.
PEDRO monta novamente em seu cavalo.
PEDRO: — Pense no que eu disse.
MARIA DO CÉU: — E se eu aceitar?
PEDRO: — Então Linda Flor vai descobrir que a verdadeira guerra ainda nem começou.
PEDRO puxa as rédeas. O cavalo começa a se afastar.
PEDRO: — E não esqueça da minha condição.
MARIA DO CÉU: — Eu não prometi nada.
PEDRO: — Mas vai pensar. E sei que vai aceitar.
PEDRO cavalga pela estrada deserta. MARIA DO Céu permanece sozinha. O sol ilumina seu rosto. Ela leva a
mão ao peito tentando controlar a respiração.
MARIA DO CÉU (para si mesma): — Perdoe-me, Jerônimo... Se eu não puder ser feliz… Linda Flor também não vai ser. Eu quero você só mim.
MARIA DO CÉU esboça um sorriso maléfico. A câmera sobe lentamente para o céu iluminado pelo sol.
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CENA 2. INTERIOR — PEQUENO HOTEL DE TANHANHEM — QUARTO DE HELENA — DIA
HELENA está sentada à pequena mesa do quarto. Sobre ela, o documento oficial que autoriza a criação da escola.
Ela passa os olhos pelo papel com um sorriso discreto.
HELENA: — Finalmente…
Uma batida forte na porta. HELENA se assusta. Outra batida. Ela fecha o documento rapidamente. Levanta-se.
Vai até a porta. Abre. Seu sorriso desaparece. TENÓRIO está parado diante dela. Imponente. Frio. A mão repousando sobre o chicote preso à cintura. HELENA fica imóvel. Ela e TENÓRIO ficam se encarando.
HELENA: — Tenório…
Sem pedir licença, o coronel entra.HELENA fecha a porta lentamente. Os dois ficam frente a frente.
HELENA: — O que você pensa que está fazendo aqui?
TENÓRIO: — Soube que você conseguiu o documento.
HELENA: — A notícia corre rápido em Tanhanhem.
TENÓRIO: — Principalmente quando envolve alguém querendo desafiar os Ferreira Lemos. Isso é inaceitável.
HELENA cruza os braços. Olha TENÓRIO bem séria.
HELENA: — Então foi por isso que veio?
TENÓRIO: — Vim evitar um problema.
HELENA dá uma risada curta.
HELENA: — Que generoso.
TENÓRIO: — Essa escola não vai acontecer.
HELENA: — Vai sim, Tenório. E você não vai impedir.
TENÓRIO: — Não vai. É melhor você não me desafiar.
Os dois se encaram. Nenhum disposto a recuar.
TENÓRIO: — Carlota me contou sobre o documento.
HELENA (sorrindo): — Eu imaginava.
TENÓRIO: — Por isso estou aqui.
HELENA: — Para me ameaçar?
TENÓRIO: — Para lhe fazer uma proposta.
HELENA ergue uma sobrancelha.
HELENA: — Estou ouvindo.
TENÓRIO: — Desista da escola. É seu último aviso.
HELENA (seca): — Não.
TENÓRIO: — Ainda nem ouviu o resto.
HELENA: — Não preciso.
TENÓRIO: — Se abandonar essa ideia ridícula, eu permito que fique em Tanhanhem. O que você me diz?
HELENA: — Permite? Desde quando você é dono da cidade? Eu não sou uma mulher de desistir do que quero. E você não vai mandar em mim, Tenório.
TENÓRIO: — Desde que ninguém teve coragem de me enfrentar. E você está começando a me irritar, Helena.
HELENA: — Até agora.
O olhar dele endurece.
TENÓRIO: — Estou tentando evitar que você se machuque. Eu não quero fazer nada contra você.
HELENA: — Não. Você está tentando proteger o seu poder. Porque sabe que uma cidade educada deixa de ter medo. E sem medo você perde todo o seu controle.
TENÓRIO aperta o cabo do chicote.
TENÓRIO: — Você não sabe com quem está mexendo.
HELENA: — Sei exatamente. Eu conheci o Tenório antes de tudo isso. Você já se esqueceu disso, coronel Tenório?
O vilão fica imóvel.
HELENA: — Conheci um rapaz sonhador. Um homem que acreditava em justiça. Um homem que eu amei.
Os olhos de TENÓRIO vacilam por um instante. Mas logo a dureza retorna. Ele olha HELENA com desprezo.
HELENA: — Mas aquele homem morreu.
TENÓRIO: — Chega.
HELENA: — Morreu no dia em que você escolheu o poder. No dia que deixou o dinheiro te dominasse.
TENÓRIO: — Eu disse chega!
A voz dele ecoa pelo quarto. HELENA não se intimida.
HELENA: — Você deixou o dinheiro te transformar. Você deixou a ambição te destruir. E agora quer destruir todo mundo junto. E isso não vai acontecer, Tenório.
TENÓRIO: — Você vai se arrepender dessas palavras.
HELENA: — Não me arrependo da verdade.
TENÓRIO: — A escola não verá a luz do dia.
HELENA: — Verá sim.
TENÓRIO: — Eu não vou permitir.
HELENA: — Você não pode impedir o futuro para sempre. A educação é o que vai salvar essa cidade.
TENÓRIO se aproxima perigosamente.
TENÓRIO: — Posso impedir você.
HELENA: — Então faça. Agora saia do meu quarto.
TENÓRIO respira fundo. Tentando recuperar o controle.
TENÓRIO: — Última chance.
HELENA: — Não.
TENÓRIO: — Nem por você.
HELENA: — Nem por mim.
TENÓRIO: — Nem por Linda Flor.
HELENA: — Nem por ela.
TENÓRIO aponta o dedo para HELENA.
TENÓRIO: — Então escute bem. Se você e Linda Flor insistirem nessa escola… Eu vou usar todo o poder que tenho. Toda a influência que construí. E vou reduzir vocês duas a pó. Estamos entendidos Helena?
HELENA não abaixa o olhar.
HELENA: — Pode tentar.
Os olhos dos dois se cruzam. Uma verdadeira guerra silenciosa. TENÓRIO abre a porta. Antes de sair, lança um último olhar para ela. Eles se encaram.
TENÓRIO: — Você acabou de escolher um lado.
HELENA: — Não. Eu escolhi o lado certo.
TENÓRIO bate a porta com violência.vO estrondo ecoa pelo quarto. HELENA permanece parada. Respirando fundo. Pela primeira vez, o medo aparece em seu rosto.
Ela olha para o documento sobre a mesa. Depois para a porta fechada. O seu semblante é de preocupação.
HELENA (baixinho): — Meu Deus… O Tenório está disposto a tudo. Eu tenho receio do que ele vai fazer.
A câmera fecha lentamente em seu rosto preocupado.
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CONTINUA NA PUBLICAÇÃO ACIMA...
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CENA 7. INTERIOR — BORDEL DA LUZ VERMELHA — QUARTO DE NINA — DIA
NINA está sentada na cama com o jornal aberto nas mãos. O sorriso venenoso em seu rosto denuncia sua satisfação ao ver o escândalo estampado na primeira página. Uma batida forte ecoa na porta. A vilã sorri.
NINA(sorrindo para si mesma): — Eu sabia que você vinha. Pode entrar. Eu sei bem que é você, Rosa.
A porta se abre violentamente. ROSA entra como uma tempestade. Os olhos estão tomados pela raiva.
NINA (deboche puro): —E então? Gostou da surpresa?
ROSA: — Você perdeu qualquer limite que ainda tinha, Nina. O que você fez foi algo totalmente imperdoável.
NINA: — Eu apenas mostrei pra cidade inteira quem é o grande Zeca Batista. Você deveria me agradecer.
ROSA: — Mentira!
NINA sorri friamente. Ela e ROSA se encaram.
NINA: — Mentira? A foto está no jornal. Tanhanhem inteira viu. Você não pode lutar contra os fatos, Rosa.
ROSA: — Eu conheço o Zeca. Conheço o homem que ele é. E não vai ser você que vai conseguir mudar isso.
NINA: — Conhece mesmo? Porque a cidade inteira parece estar descobrindo outra versão dele.
ROSA (aproximando-se): — De quem foi a ideia?
NINA: — O quê? Eu não sei do que você está falando.
ROSA: — Essa armação. Esse plano imundo.
NINA (sarcástica): — Armação? Que palavra feia.
ROSA: — Você nunca teve inteligência para montar uma sujeira dessas sozinha. Nós duas sabemos disso.
O sorriso desaparece do rosto de NINA.
NINA: — Cuidado, Rosa.
ROSA: — Tem dedo de alguém poderoso nisso. E eu vou descobrir quem foi. Você não consegue me enganar.
NINA: — Pode procurar o quanto quiser.
ROSA: — A verdade sempre aparece.
NINA: — Nem sempre.
As duas ficam frente a frente. Tensão no ar.
NINA: — O que importa é que agora seu santinho caiu do altar. E agora a cidade vai voltar a sua rotina normal.
ROSA: —Você é uma pessoa amarga.
NINA: — E você é uma tola.
ROSA: — Eu tenho pena de você.
NINA: — Guarde sua pena.
ROSA: — Você fez uma coisa muito baixa.
NINA: — Fiz o necessário.
ROSA: — Necessário pra quê?
NINA: — Pra você aprender a nunca mais atravessar o meu caminho. Você nunca será melhor do que eu, Rosa.
ROSA vai ficando ainda mais nervosa. NINA sorri.
ROSA: — Seu caminho?
NINA: — Tudo que eu quis, você teve primeiro.
ROSA: — Isso nunca foi sobre o Zeca.
NINA (gritando): — Claro que foi!
ROSA: — Não. Isso é inveja.
NINA: — Cala a boca!
ROSA: — Você odeia ver alguém feliz.
NINA: — E você adora bancar a santa.
O clima entre ROSA e NINA fica mais pesado.
ROSA: — Eu não sou santa.
NINA: — Mas todo mundo te trata como se fosse.
ROSA: — Enquanto você destrói a vida das pessoas.
NINA: — Eu faço o que for preciso para conseguir o que eu quero. E não vai ser você que vai me impedir.
ROSA: — Pois você foi longe demais.
NINA: — E o que você vai fazer?
ROSA a encara por alguns segundos.
NINA: — Você não vai fazer nada.
ROSA: — Tem razão. (pausa) Tem só uma coisa que eu posso fazer. E eu demorei demais para fazer isso.
ROSA desfere um tapa fortíssimo no rosto de NINA.
A vilã perde o equilíbrio e cai ao lado da cama. O jornal escapa de suas mãos. ROSA a encara seriamente.
NINA (furiosa): — Sua desgraçada!
ROSA: — Isso foi por você ter destruído a honra de um homem inocente. O Zeca não merecia isso. Não mesmo.
NINA: — Você vai pagar por isso!
ROSA: — Não. Quem vai pagar é você.
NINA: — Eu vou acabar com você!
ROSA: — A verdade está chegando, Nina.
NINA: — Sai daqui!
ROSA: — Isso ainda não acabou.
ROSA se vira e deixa o quarto. A porta bate com força.
NINA se levanta lentamente. O rosto queimando de ódio. Os olhos cheios de lágrimas de humilhação.
NINA (entre dentes): — Você vai se arrepender, Rosa...
Eu juro que você vai pagar caro por esse tapa.
Close no olhar tomado pelo ódio de NINA.
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CENA 8. EXTERIOR — RUA PRINCIPAL DE TANHANHEM — DIA
O carro de ZECA BATISTA para em frente à Rádio A Voz da Terra. Assim que ele desce, percebe dezenas de moradores reunidos. Alguns seguram exemplares do jornal. Outros cochicham indignados. O clima é hostil.
ZECA BATISTA percebe imediatamente que a situação é pior do que imaginava. Os populares estão enraivecidos.
ZECA BATISTA: — Pessoal... eu sei o que vocês estão pensando, mas eu preciso que me escutem!
Um homem ergue o jornal.
POPULAR 1: — Escutar o quê, Zeca? Tá tudo aqui estampado! Você ainda vai ter coragem de mentir?
POPULAR 2: — A gente confiava em você!
POPULAR 3: — Pregava moral na rádio e fazia isso escondido? Você é mesmo homem desprezível, Zeca.
Murmúrios de reprovação.
ZECA BATISTA: — Isso é uma armação! Eu nunca toquei naquela mulher! Vocês tem que acreditar.
A multidão reage com descrença.
POPULAR 4: — Agora ficou fácil dizer isso!
POPULAR 5: — A foto tá aí! Como é que explica?
ZECA BATISTA: — Eu estava dormindo! Alguém entrou no meu apartamento sem que eu percebesse!
Risadas surgem. ZECA BATISTA fica tenso.
POPULAR 2: — E nós temos cara de idiota?
POPULAR 6: — Eu acreditei em você a vida inteira!
POPULAR 7: — Hipócrita!
POPULAR 8: — Falso moralista!
As palavras começam a atingir ZECA BATISTA. Mesmo assim ele mantém a postura. Ele os encara bem sério.
ZECA BATISTA: — Vocês me conhecem! Conhecem minha história! Acham mesmo que eu passaria anos defendendo essa cidade pra jogar tudo fora desse jeito?
POPULAR 1: — Talvez a gente nunca tenha te conhecido de verdade! O coronel Tenório sempre esteve certo.
A frase atinge como um soco. ZECA BATISTA fica pensativo. Os populares começam a se exaltar.
ZECA BATISTA: — Quem fez isso quer destruir minha candidatura! E vocês sabem muito bem quem fez isso.
POPULAR 3: — Claro! A culpa agora é dos outros!
POPULAR 4: — Sempre tem uma desculpa!
ZECA BATISTA: — Não é desculpa! É a verdade!
POPULAR 5: — A verdade é que você nos enganou!
Os ânimos começam a ferver. Um homem amassa o jornal e o joga aos pés de ZECA BATISTA.
POPULAR 6: — Vergonha!
POPULAR 7: — Você não merece representar Tanhanhem! Nunca mais vamos ouvir seu programa!
Mais vozes se somam.
MULTIDÃO: — Hipócrita! Mentiroso! Falso! Vergonha!
ZECA BATISTA sente o peso da rejeição. Mas não recua.
Ele sobe em um banco de madeira da praça para ser visto por todos. Os populares encaram ele com raiva.
ZECA BATISTA: — Olhem pra mim! Eu não vou fugir! Não vou me esconder! E não vou abandonar essa cidade!
Se eu fosse culpado, estaria correndo. Estaria tentando desaparecer. Mas estou aqui! Porque sou inocente!
Alguns hesitam. Outros permanecem revoltados.
POPULAR 2: — Então prove!
POPULAR 1: — É! Prove!
ZECA BATISTA: — E eu vou provar! Nem que eu tenha que enfrentar o homem mais poderoso desta cidade.
A multidão percebe de quem ele está falando.
POPULAR 5: — Tá acusando o coronel Tenório?
ZECA BATISTA: — Eu estou dizendo que existe alguém muito interessado em destruir meu nome.
O silêncio toma conta da rua.
POPULAR 8: —E se você estiver mentindo?
ZECA BATISTA: — Então eu mereço perder tudo.
Os populares se entreolham. A dúvida começa a surgir em alguns rostos. Mas a revolta ainda é maior.
POPULAR 3: — Você tem pouco tempo pra provar isso, Zeca Batista. Ninguém aqui acredita mais em você.
POPULAR 4: — Muito pouco.
A multidão começa a se dispersar lentamente. Uns ainda o insultam. Outros apenas o encaram decepcionados. ZECA BATISTA permanece parado no meio da rua.
Sozinho. Humilhado. Mas determinado. Seu olhar sobe até a fachada da Rádio A Voz da Terra. A câmera fecha lentamente em seu rosto.
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•CONTINUA NO PRIMEIRO COMENTÁRIO FIXADO•
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CENA 5. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO E SALUSTIANA — COZINHA — DIA
A mesa está posta, mas ninguém toca na comida. SALUSTIANA, LUZIA e MARIA DO CÉU estão em silêncio. O clima é pesado. A porta se abre e MACÁRIO entra. Seu rosto está machucado, a camisa trocada e ainda há marcas evidentes da violência que sofreu.
LUZIA (assustada, levantando-se imediatamente): —
Meu Deus do céu! Pai! O que fizeram com o senhor?
MACÁRIO: — Nada que importe mais do que eu estar em casa, minha filha. Você não precisa se preocupar.
MARIA DO CÉU (fria, sem se levantar): — Eu já sei o que aconteceu. E sinceramente? Isso só está fazendo a nossa família passar mais vergonha nessa cidade.
SALUSTIANA não acredita no que ela ouve.
SALUSTIANA (indignada): — Maria do Céu!
MARIA DO CÉU: — O povo inteiro está falando do roubo do cacau. Não dá mais pra fingir que nada aconteceu. Vocês precisam aceitar a realidade.
SALUSTIANA (batendo na mesa): — Respeite seu pai!
MARIA DO CÉU: — Respeitar? Como é que eu vou respeitar alguém que virou motivo de fofoca em Tanhanhem inteira? O meu pai é um homem fraco.
MACÁRIO (magoado): — Você acredita mesmo que eu sou ladrão? Você acha isso do homem que criou você?
MARIA DO CÉU: — As provas estão aí. Pedro viu. Dito viu. Todo mundo viu. E você está negando a verdade.
MACÁRIO: — Olhe bem pra mim, Maria do Céu.
MARIA DO CÉU sustenta o olhar. MACÁRIO a encara.
MACÁRIO: — Eu jamais roubei nada de ninguém. Nunca precisei disso. Porque é tão difícil de acreditar?
MARIA DO CÉU: — Então por que foi pego?
MACÁRIO: —;Porque fui vítima de uma armação.
MARIA DO CÉU: — Isso é o que todo culpado diz.
MACÁRIO baixa a cabeça, profundamente decepcionado. Ele olha com seriedade para sua filha.
MACÁRIO: — Eu suportei a humilhação. Suportei a surra. Mas ouvir isso da minha própria filha…
MACÁRIO respira fundo.
MACÁRIO: — Isso dói muito mais.
LUZIA (aproximando-se de Maria do Céu): — Você devia sentir vergonha. Olha o que o nosso pai sofreu.
MARIA DO CÉU: — E por quê?
LUZIA: — Porque conhece o homem que o nosso pai é.
MARIA DO CÉU: — Conheço muito bem.
LUZIA: — Não conhece não. Mas eu conheço você.
MARIA DO CÉU estreita os olhos.
LUZIA: — Eu sei que foi você quem armou junto com Pedro aquele falso flagrante pra separar Jerônimo e Linda Flor. Não adianta mais você mentir, Maria do Céu.
SALUSTIANA e MACÁRIO ficam chocados.
SALUSTIANA: — O quê?
MACÁRIO: — Maria do Céu... isso é verdade?
MARIA DO CÉU sorri friamente.
MARIA DO CÉU: — É. E faria tudo de novo.
SALUSTIANA: — Minha Nossa Senhora...
MARIA DO CÉU: — Jerônimo deveria estar comigo.
LUZIA: — Ele nunca vai estar! Ele não ama você.
MARIA DO CÉU: — Vai sim. Eu não vou desistir dele.
MACÁRIO: — Filha...
MARIA DO CÉU: — E se Linda Flor continuar no meu caminho. Eu juro que eu faço algo bastante definitivo…
MARIA DO CÉU sorri de forma perturbadora.
MARIA DO CÉU: — Eu tiro ela do meu caminho.
LUZIA (gritando): — Chega!
LUZIA dá um forte tapa no rosto da irmã. MARIA DO CÉU leva a mão ao rosto, atônita. Elas se encaram.
LUZIA: — Você perdeu completamente o juízo!
MARIA DO CÉU (com ódio): — Você me bateu?
LUZIA: —!E bato de novo se você continuar ameaçando a Linda Flor! Espero que você agora tenha entendido.
MARIA DO CÉU: — Ela roubou tudo o que era meu!
LUZIA: — Jerônimo nunca foi seu!
MARIA DO CÉU: — Vai ser! Pode anotar, irmãzinha.
As duas avançam uma contra a outra, mas SALUSTIANA se coloca no meio. O clima fica tenso.
SALUSTIANA: — Chega! As duas!
MACÁRIO também intervém.
MACÁRIO: — Isso já passou de todos os limites!
SALUSTIANA (chorando): — Maria do Céu, olha o que você está se tornando! Eu não te reconheço mais.
MARIA DO CÉU: — Eu estou me tornando alguém que luta pelo que quer. E o Jerônimo vai ser meu. Só meu.
LUZIA: — Não. Você está se tornando uma pessoa cruel.
SALUSTIANA: — Sua obsessão está destruindo você.
MARIA DO CÉU: — Então deixem que eu me destrua.
MARIA DO CÉU encara cada um deles.
MARIA DO CÉU: — Mas escutem muito bem.(pausa) Eu vou até as últimas consequências. Não adianta me parar.
MACÁRIO: — Filha...
MARIA DO CÉU: — E é melhor que nenhum de vocês atravesse o meu caminho. Para o bem de vocês.
MARIA DO CÉU sai da casa batendo a porta com força.
O silêncio volta a dominar o ambiente.
LUZIA: — Eu estou com medo dela.
SALUSTIANA: — Eu também, minha filha.
MACÁRIO: — Aquela não é mais a menina que nós criamos. O que foi que aconteceu com a Maria?
SALUSTIANA segura a mão do marido.
SALUSTIANA: — O que foi que aconteceu com a nossa filha? Onde foi que a gente errou com ela, Macário?
MACÁRIO não responde. Os três permanecem imóveis, tomados pela preocupação, enquanto a noite parece ficar ainda mais pesada ao redor deles.
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CENA 6. INTERIOR — PREFEITURA DE TANHANHEM — GABINETE DO PREFEITO — DIA
AURELIANO está atrás de sua mesa examinando alguns documentos. A tranquilidade é interrompida quando a porta do gabinete se abre violentamente. CONSTÂNCIA entra feito um furacão. Nas mãos, um jornal. Sem pedir licença, ela atravessa a sala e joga o periódico sobre a mesa do marido. AURELIANO a encara confuso.
CONSTÂNCIA: — Está satisfeito?
AURELIANO se assusta.
AURELIANO: — C-Constância?
CONSTÂNCIA: —;Eu perguntei se está satisfeito!
AURELIANO pega o jornal. Ao ver a fotografia de ZECA BATISTA ao lado de NINA, quase deixa o jornal cair.
AURELIANO: — Mas... mas o que é isso?
CONSTÂNCIA: — É o resultado da sua brilhante escolha para sucedê-lo na prefeitura de Tanhanhem!
AURELIANO continua olhando a manchete.
AURELIANO: — Isso não pode estar certo...
CONSTÂNCIA: — Está estampado na primeira página!
AURELIANO: — Deve haver uma explicação.
CONSTÂNCIA: — Explicação? É sério isso, Aureliano?
AURELIANO: — O Zeca jamais faria uma coisa dessas.
CONSTÂNCIA: —Meu Deus do céu, homem! O homem está agarrado numa moça seminua e você ainda procura explicação? Você deveria ser mais inteligente.
AURELIANO: — As coisas nem sempre são o que parecem. Deve haver algo que explique isso. Acredite.
CONSTÂNCIA: — Pois parecem muito claras para mim!
AURELIANO coloca o jornal sobre a mesa.
AURELIANO: — Eu preciso conversar com ele.
CONSTÂNCIA: — Não! Absolutamente não.
AURELIANO levanta os olhos.
CONSTÂNCIA: — Você precisa procurar Tenório Ferreira Lemos! Vai até ele e diz que estava errado!
AURELIANO: — N-não. Não vou.
CONSTÂNCIA: — Vai pedir desculpas!
AURELIANO: — Constância… Por favor… Reconsidere.
CONSTÂNCIA: — Vai dizer que quer continuar como prefeito de Tanhanhem e que abandonou essa loucura de apoiar Zeca Batista! Esse é o único jeito, Aureliano.
AURELIANO se levanta. Ele encara sua esposa.
AURELIANO: — Eu não posso fazer isso.
CONSTÂNCIA: — Pode e deve!
AURELIANO: — Eu não vou abandonar o rapaz justamente agora. Eu sinto que o Zeca é inocente.
CONSTÂNCIA: — Justamente agora é quando deveria abandoná-lo! Porque se meteu onde não devia!
AURELIANO: — Eu acredito nele.
CONSTÂNCIA Pois eu acredito nos meus olhos!
CONSTÂNCIA respira fundo, tentando se controlar.
Não consegue. Ela e AURELIANO não estão de acordo.
CONSTÂNCIA: — Você sabe o que estão comentando pela cidade? Que o Zeca Batista é um hipócrita.
AURELIAN: — Não me importo com fofocas.
CONSTÂNCIA: — Pois deveria!
CONSTÂNCIA aponta para o jornal em cima da mesa.
CONSTÂNCIA: — O nome da nossa família está sendo arrastado para a lama! É isso que você queria?
AURELIANO: — Está exagerando.
CONSTÂNCIA: — Estou protegendo o que é nosso!
AURELIANO: — E eu estou tentando fazer o que é certo.
CONSTÂNCIA: — O certo? O certo seria salvar sua reputação antes que seja tarde! Mas isso você não faz.
AURELIANO : —Eu não vou me curvar ao Tenório.
CONSTÂNCIA: — Então escute muito bem.
CONSTÂNCIA se aproxima da mesa.
CONSTÂNCIA: — Se continuar apoiando esse Zeca Batista depois dessa vergonha… Pode esquecer que tem esposa! Pode esquecer! Você me ouviu, Aureliano?
AURELIANO: — Você não fala sério.
CONSTÂNCIA: — Falo seríssimo!
AURELIANO: — Você não pode me expulsar de casa.
CONSTÂNCIA: — Posso sim! Posso e vou!
AURELIANO: — Você está sendo egoísta.
CONSTÂNCIA: — E você está sendo irresponsável! (pausa) Eu só quero proteger o bom nome da nossa família. Será que você não pode entender isso?
QAURELIANO: — E eu só quero proteger a cidade.
CONSTÂNCIA: — Então faça a escolha certa! Continuar ao lado de Zeca Batista. Eu sinto muito, Constância.
CONSTÂNCIA fica imóvel. Ferida. Furiosa. Incrédula.
CONSTÂNCIA: — Então é isso. Pois saiba que acabou de comprar uma guerra. E é uma guerra que você não vai conseguir sustentar. Você sabe que essa é a verdade.
CONSTÂNCIA gira nos calcanhares. Caminha até a porta. Antes de sair, lança um último olhar ao marido.
CONSTÂNCIA: — Quando perceber o tamanho do erro que está cometendo, talvez seja tarde demais.
CONSTÂNCIA sai. A porta bate. O silêncio toma conta do gabinete. AURELIANO permanece parado. Olha para o jornal. Olha para a porta. Passa a mão pelo rosto.
AURELIANO (solitário, nervoso): — M-meu Deus do céu... m-mas em que confusão esse rapaz foi se meter?
AURELIANO volta a olhar a fotografia. Preocupado.
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CENA 3. EXTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — PLANTAÇÃO DE CACAU — MANHÃ
O sol já castiga os trabalhadores. A colheita do cacau segue intensa. Homens carregam sacas. Outros cortam frutos. Mas o assunto entre eles é um só. A surra que MACÁRIO levou. Os cochichos se espalham discretamente. PEDRO observa tudo. Enquanto TENÓRIO permanece de pé. Imponente. A mão apoiada no chicote. O olhar frio. Subitamente. O barulho de um carro se aproximando.nOs trabalhadores param para olhar. PEDRO franze a testa bastante impaciente.
PEDRO: — Quem será uma hora dessas?
TENÓRIO esboça um sorriso quase imperceptível.
TENÓRIO: — Tenho uma leve ideia.
O carro para. A porta se abre. E ZECA BATISTA desce.
Com o rosto tomado pela raiva. Os trabalhadores se entreolham.bPEDRO sorri. ZECA BATISTA caminha decidido até TENÓRIO. Sem dizer uma única palavra.
Ele dá um soco certeiro. TENÓRIO cambaleia um passo.
O canto da boca sangra. Um silêncio absoluto toma conta da fazenda. PEDRO avança. A tensão cresce.
PEDRO: — Seu desgraçado!
Mas TENÓRIO ergue a mão. Impedindo-o. Sem tirar os olhos de ZECA BATISTA. PEDRO fica bastante confuso.
TENÓRIO: — Deixa. Quero ouvir o que ele tem pra dizer. Ele deve estar com bastante raiva. Não é, Zeca?
ZECA BATISTA respira fundo. Indignado.
ZECA BATISTA: — Eu sei que foi você. Sei que aquelas fotos foram uma armação sua! Não adianta fingir.
TENÓRIO limpa o sangue do canto da boca. Sorri.
TENÓRIO: — Sabe? Que interessante. E como pretende provar isso? Porque ninguém vai acreditar em você.
ZECA BATISTA: — Eu vou descobrir. Nem que seja a última coisa que eu faça. Pode ter certeza disso.
PEDRO se aproxima. Debochado.
PEDRO: — Finalmente o santinho da cidade caiu do altar. Já não era sem tempo. Agora a Rosa vai enxergar quem você realmente é. E quando isso acontecer… Ela volta pros meus braços. É isso não vai demorar.
ZECA BATISTA encara PEDRO com desprezo.
ZECA BATISTA: — Você não merece nem pronunciar o nome dela. Você não passa de um cafajeste, Pedro.
PEDRO fecha a expressão.
ZECA BATISTA: — Você nunca conseguiu ser um homem decente. Nunca conseguiu ser marido. E muito menos pai pro Quim. Você deveria ter vergonha disso.
Os trabalhadores começam a cochichar novamente.
PEDRO fica vermelho de raiva. Ele encara ZECA BATISTA. O radialista não demonstra medo.
PEDRO: — Cuidado com o que fala!
ZECA BATISTA: — Ou vai fazer o quê? Mandar me bater também? Como fizeram com Macário? Covardes.
O silêncio volta a cair. TENÓRIO se aproxima lentamente. Os dois ficam frente a frente.
TENÓRIO: — Você está se esquecendo com quem está falando. E se esquecendo quem manda nessa cidade.
ZECA BATISTA: — Não. Eu sei exatamente. Estou falando com o homem que acredita ser dono dessa cidade. Mas deixa eu te contar algo. Você não é.
TENÓRIO sorri. Mas o ódio em seus olhos é evidente.
TENÓRIO: — E sua aventura política acabou. Acabou no momento em que resolveu desafiar os Ferreira Lemos.
Tanhanhem continuará exatamente como sempre foi.
Sob o nosso comando. Sob o nosso poder. Entendeu?
ZECA BATISTA encara o vilão sem abaixar a cabeça.
ZECA BATISTA: — Isso é o que você pensa. Eu vou provar minha inocência. Vou mostrar ao povo que tudo isso não passou de uma armadilha. Algo imundo.
PEDRO gargalha.
PEDRO: — Armadilha? Você devia agradecer por estar saindo daqui inteiro. Isso é pra aprender a nunca enfrentar quem realmente manda nessa cidade.
ZECA BATISTA: — Quem manda numa cidade é o povo. Não um coronel agarrado ao passado. Essa é a verdade.
TENÓRIO: — Some da minha frente. Antes que aconteça algo que nenhum de nós vai conseguir controlar.
ZECA BATISTA percebe os homens ao redor. Percebe os olhares. Percebe que está sozinho. Mas não se intimida.
Dá um passo para trás. Depois encara TENÓRIO uma última vez. O vilão não gosta nenhum pouco disso.
ZECA BATISTA: — Essa guerra está longe de acabar.
E quando a verdade aparecer… O povo de Tanhanhem vai saber quem estava mentindo. E quem estava falando a verdade. E você terá o seu império arruinado.
TENÓRIO apenas o observa. Frio. Imóvel. ZECA BATISTA entra no carro. Liga o motor. E parte. O veículo desaparece pela estrada de terra. O silêncio permanece por alguns segundos. Até PEDRO quebrá-lo.
PEDRO: — O homem tá ficando mais corajoso demais
TENÓRIO continua olhando para a estrada. Sombrio.
PEDRO: — O que o coronel pretende fazer?
TENÓRIO: — Por enquanto… Nada.
PEDRO: — E se ele continuar cavando?
TENÓRIO finalmente se vira. O olhar gelado. Perigoso.
TENÓRIO: — Então Zeca Batista vai precisar ser tirado de cena. Ele não pode continuar vivo e me desafiando.
PEDRO (sorrindo) : — Entendi perfeitamente.
TENÓRIO volta a observar a fazenda.bEnquanto os trabalhadores retomam o serviço. Mas agora todos sabem. Uma nova guerra acaba de começar em TANHANHEM. E ele não quer perder essa guerra.
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CENA 4. INTERIOR — CASA DE ZÉ BENTO E LINDA FLOR — SALA — DIA
As horas começam a passar. A casa simples está silenciosa. ZÉ BENTO organiza algumas ferramentas sobre a mesa quando a porta se abre. LINDA FLOR entra. Ela tenta disfarçar. Mas é impossível. Há um brilho diferente em seu olhar. Uma felicidade que transborda. ZÉ BENTO percebe imediatamente.
ZÉ BENTO: — Oxente… Que felicidade toda é essa?
LINDA FLOR tenta esconder o sorriso. Mas não consegue. ZÉ BENTO então percebe a corda com a pequena pedra enrolada em sua mão. Ele aponta.
ZÉ BENTO: — E essa pedrinha aí? Tem história nisso, num tem? Você não precisa mentir para mim, filha.
LINDA FLOR olha para a pedra. Os olhos se enchem de emoção. Ela respira fundo e depois olha para seu pai.
LINDA FLOR: — Tem. E é a história mais bonita da minha vida. Algo que vem desde a minha infância.
ZÉ BENTO já começa a sorrir.
ZÉ BENTO: — Jerônimo? Não é, minha filha?
LINDA FLOR confirma com a cabeça.
LINDA FLOR: — Jerônimo me pediu em casamento.
O sorriso de ZÉ BENTO aumenta. Os olhos dele se enchem de orgulho. Ele e LINDA FLOR se encaram.
ZÉ BENTO: — Então era isso… Eu sabia.
LINDA FLOR: — Foi ele quem colocou essa corda na minha mão. A gente se encontrou no campo aberto ontem a noite. Ele disse que não quer ficar longe.
ZÉ BENTO se aproxima. Observa a filha.
ZÉ BENTO: — Dá pra ver de longe o quanto você tá feliz.
Seu rosto tá iluminado. Parece até uma menina.
LINDA Flor segura a pedra. Com carinho.
LINDA FLOR: — Porque isso aqui não é uma joia.
Nem ouro. Nem riqueza. É uma promessa. Um amor que nasceu quando a gente ainda era criança.
ZÉ BENTO sorri. Visivelmente emocionado.
ZÉ BENTO: — Eu sempre soube que Jerônimo era um homem bom. Direito. Honesto. Igual ao pai dele.
LINDA FLOR olha para Zé Bento. Os olhos marejados.
LINDA FLOR: —Então… O senhor dá sua bênção?
ZÉ BENTO fica alguns segundos em silêncio. Observando a filha. Depois abre um sorriso enorme.
ZÉ BENTO: — Eu seria um completo maluco se dissesse não. Eu fico muito feliz com esse casamento, Linda Flor.
LINDA FLOR: — Pai...
ZÉ BENTO: — O que mais quero nesse mundo é ver você feliz. E eu sei que você ama aquele rapaz. É o importa.
LINDA FLOR abraça o pai. Fortemente.
LINDA FLOR: — Obrigada. Obrigada por tudo.
Os dois permanecem abraçados. Então LINDA FLOR se afasta um pouco. Ainda bastante emocionada.
LINDA FLOR: — Tem mais uma coisa. Eu queria muito que fosse o senhor a me levar até o altar.
ZÉ BENTO fica imóvel. As palavras o atingem profundamente. Os olhos dele marejam. Ele demora alguns segundos para conseguir responder.
ZÉ BENTO: — Nada… Nada nesse mundo poderia me fazer mais feliz do que isso. Pode ter certeza disso.
LINDA FLOR volta a abraçá-lo.bAgora ambos emocionados.bDepois de alguns instantes. ZÉ BENTO respira fundo. Ele encara LINDA FLOR suavemente.
ZÉ BENTO: — Mas eu também tenho uma coisa pra te contar. Algo que aconteceu e você não vai acreditar.
LINDA FLOR: — Não precisa.
ZÉ BENTO (estranhando): — Como assim não precisa?
LINDA FLOR: — O senhor beijou a Helena.
ZÉ BENTO fica completamente sem reação.
ZÉ BENTO: — Mas… Quem te contou?
LINDA FLOR: — Ninguém. Porque eu tô vendo nos seus olhos. E o senhor não consegue esconder isso de mim.
Os dois riem. Pela primeira vez em muito tempo. Uma felicidade leve. Sincera. Algo que o deixa suave.
ZÉ BENTO: — Eu não sei esconder mesmo, né?
LINDA FLOR: — Nunca soube.
ZÉ BENTO: — Ela é uma mulher muito especial.
LINDA FLOR: — E o senhor merece ser feliz. Depois de tudo o que sofreu. Depois de tudo o que perdeu.
ZÉ BENTO sente os olhos marejarem novamente.
ZÉ BENTO: — Talvez Deus esteja me dando uma segunda chance. E eu não pretendo desperdiçar.
LINDA FLOR: — E eu acho que o senhor devia aceitar.
Pai e filha se olham. Com amor. Com cumplicidade.
Com a certeza de que finalmente suas vidas estão mudando. Eles se abraçam mais uma vez.bEnquanto o sol entra pela janela da casa. Iluminando aquele momento de felicidade simples.
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TOCAIA DO ALTO 🌴 web novela
CAPÍTULO 31
Novela criada e escrita por: Luan Maciel
Produção executiva: LRTV
Abertura: https://youtu.be/CTJoSo4xVv8?is=lvUHJ...
CENA 1. EXTERIOR — PRAÇA DE TANHANHEM — MANHÃ
Continuação imediata do capítulo anterior. MARIA DO CÉU vai embora pela praça. Os passos rápidos. O rosto tomado pelo ódio. As lágrimas misturadas com a raiva.
JERÔNIMO e LINDA FLOR permanecem parados.
Observando a vilã desaparecer na escuridão. O silêncio pesa. JERÔNIMO se volta para LINDA FLOR. A marca do tapa ainda está visível em seu rosto. Imediatamente ele toca seu rosto com delicadeza. Eles se encaram.
JERÔNIMO: — Você está bem?
LINDA FLOR (forçando um sorriso): — Já passei por coisa pior. Não vai ser a Maria do Céu que vai me irritar.
JERÔNIMO balança a cabeça. Indignado.
JERÔNIMO: — Eu devia ter impedido.
LINDA FLOR: — Não. Ela precisava entender que eu não vou abaixar a cabeça pra ela. Nunca mais.
JERÔNIMO observa a mulher que ama. Orgulhoso.
JERÔNIMO: — Você foi corajosa. Mais do que eu teria sido. A Maria do Céu está ficando mais obcecada.
LINDA FLOR: — Não fala isso. Se você não estivesse aqui ela teria feito muito pior. E você sabe bem disso.
JERÔNIMO olha na direção por onde Maria do Céu desapareceu. Preocupado. LINDA FLOR percebe.
JERÔNIMO: —;Ela está cada vez mais perigosa. Cada vez mais fora de si. Alguém precisa fazer alguma coisa.
LINDA FLOR: — Eu sei. E é isso que me assusta.
Os dois permanecem em silêncio. O vento sopra suavemente pela praça. Eles se olham fixamente.
LINDA FLOR: — Quando ela falou daquele jeito… Eu senti medo. Eu fico com receio do que ela possa fazer.
JERÔNIMO: — Fazer o quê?
LINDA FLOR: — De que ela seja capaz de qualquer coisa. Porque uma pessoa que já não consegue distinguir amor de obsessão… Pode acabar fazendo loucuras.
JERÔNIMO: — Eu não vou deixar nada acontecer com você. A Maria do Céu nunca vai chegar perto de nós.
LINDA FLOR sorri. Emocionada.
LINDA FLOR: — E eu não vou deixar nada acontecer com você. Se é guerra que a Maria do Céu quer então é o que ela vai ter. Porque eu não vou desistir do que quero.
JERÔNIMO fica sério. Como se lembrasse de algo.
LINDA FLOR: — O que foi?
JERÔNIMO: — Tenório. Pedro. Maria do Céu. Tudo está ficando perigoso demais. Tenho a sensação de que alguma coisa muito ruim está para acontecer.
LINDA FLOR sente um arrepio. Mas tenta afastar o pressentimento. Ela toca nas mãos dele suavemente.
LINDA FLOR: — Nós já enfrentamos tanta coisa. Vamos enfrentar essa também. Juntos. Como sempre fizemos.
JERÔNIMO sorri. Toca a pedra amarrada à mão dela.
JERÔNIMO: — Juntos. Sempre.
LINDA FLOR se aproxima. Os dois se abraçam. A câmera começa a se afastar. Mas, do outro lado da praça… Escondida atrás de uma árvore… MARIA DO CÉU observa tudo. Ela não foi embora. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Mas também de ódio. Muito ódio.
MARIA DO CÉU (sussurrando): — Se eu não posso ser feliz… Vocês também não vão ser. Nunca.
O sorriso perturbador surge novamente em seu rosto.
Enquanto observa o casal abraçado. A câmera fecha lentamente em seus olhos obsessivos.
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CENA 2. EXTERIOR — EM FRENTE AO TRIBUNAL DE TANHANHEM — MANHÃ
O movimento na rua é discreto. HELENA desce as escadarias do tribunal. Nas mãos, um documento cuidadosamente dobrado. Seu semblante demonstra satisfação. Uma vitória importante acabou de ser conquistada. Mas sua expressão muda quando percebe alguém bloqueando seu caminho. CARLOTA FERREIRA LEMOS. Elegante. Imponente. E tomada pelo ódio.
As duas mulheres se olham. Como duas forças opostas.
CARLOTA: — Então é verdade. Você continua em Tanhanhem. Eu pensei que tinha sido clara com você.
HELENA: — Pelo visto isso incomoda bastante você.
CARLOTA: — Mais do que você imagina. Principalmente depois que descobri esse passado ridículo que você teve com Tenório. E essa aproximação inconveniente com Zé Bento. Eu não saber de você perto dele. Entendido?
HELENA mantém a calma.
HELENA: — Que bom. Porque eu não pretendo ir embora tão cedo. (pausa) Principalmente agora.
CARLOTA: — Agora o quê? Do que você está falando?
HELENA ergue o documento. Um sorriso surge em seu rosto. CARLOTA a encara com uma frieza descomunal.
HELENA: — Porque a autorização saiu. A escola foi aprovada. Linda Flor vai ficar muito feliz. Eu sei que vai.
O sangue parece ferver nas veias de CARLOTA.
CARLOTA: — O quê?! Nem pensar.
Ela tenta arrancar o documento das mãos de HELENA.
Mas Helena é mais rápida. Recua imediatamente.
HELENA: — Nem tente.
CARLOTA: — Me dê isso! AGORA!
HELENA: — Não. É melhor você desistir, Carlota.
CARLOTA: — Essa escola não vai existir! Está me ouvindo?! NÃO VAI! Isso é uma afronta a minha família.
HELENA a encara sem recuar um centímetro.
HELENA: — Você perdeu, Carlota. Você e Tenório perderam. Não existe mais nada que possam fazer. As crianças de Tanhanhem vão estudar. Vão aprender a ler.
A escrever. Vão conhecer um mundo maior do que o medo que vocês impõem. É isso é uma grande vitória.
CARLOTA ri. Uma risada carregada de desprezo.
CARLOTA: — Você realmente acha que um papel vai derrotar os Ferreira Lemos? Você é muito ridícula.
HELENA: — Não. Mas a verdade costuma derrotar.
E ela está chegando cada vez mais perto de vocês.
CARLOTA: — Isso nunca vai acontecer! NUNCA!
Ou eu não me chamo Carlota Ferreira Lemos!
HELENA sorri. Agora de forma provocadora.
HELENA: — Falando em derrotas… Tem outra coisa que eu deveria agradecer. É isso eu faço questão de contar.
CARLOTA: — Do que está falando?
HELENA: — Do Zé Bento.
O rosto da vilã endurece imediatamente.
HELENA: — Você tinha razão. Ele é um homem extraordinário. E o beijo dele… É inesquecível.
A provocação atinge CARLOTA em cheio. Ela perde completamente o controle. Levanta a mão. Pronta para acertar HELENA. Mas… HELENA segura seu pulso no ar. Com firmeza. Sem dificuldade. As duas se encaram.
HELENA: — Não. Você não vai fazer isso.
CARLOTA: — Me larga!
HELENA então a empurra para trás. Sem violência.
Mas com elegância e autoridade. CARLOTA recua alguns passos. Humilhada. A vilã olha para HELENA com ódio.
HELENA: — Você passou anos destruindo vidas. A de Zé Bento.bA de Linda Flor. A de muita gente nessa cidade.
Mas isso acabou. Eu vou enfrentar você de frente.
CARLOTA: — Quem você pensa que é?!
HELENA: — Alguém que não tem medo de você. E que sabe exatamente onde você e Tenório deveriam estar.
CARLOTA respira pesadamente.
HELENA: — Na cadeia.
O ódio da vilã torna-se quase palpável.
CARLOTA: — Isso não vai ficar assim. NÃO VAI!
HELENA: — Já ouvi essa ameaça antes. E continuo aqui.
CARLOTA aponta o dedo para ela.
CARLOTA: — Você vai se arrepender. Eu juro que vai.
HELENA: — Boa sorte tentando.
CARLOTA gira nos calcanhares. E vai embora. Bufando de ódio. Consumida pela raiva. HELENA observa a rival desaparecer pela rua.vDepois olha para o documento em suas mãos. Seus olhos brilham. Ela aperta o papel contra o peito.vE sussurra para si mesma:
HELENA: — A educação vai vencer. Vai vencer o medo.
Vai vencer o coronelismo. E vai vencer gente como vocês. Não existe medo que possa vencer a educação.
HELENA sorri. Determinada. Enquanto segue caminhando pela rua ensolarada de TANHANHEM.
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CENA 7. INTERIOR — RÁDIO “A VOZ DA TERRA” — ESTÚDIO — MANHÃ
O estúdio está pronto para mais uma transmissão.
Os equipamentos ligados. Os papéis organizados sobre a mesa. ZECA BATISTA ajusta os fones de ouvido. Faltam poucos minutos para entrar no ar. De repente… BATIDAS FORTES na porta. Uma atrás da outra. ZECA BATISTA estranha. Ele fica bastante confuso.
ZECA BATISTA: — Pode entrar!
A porta se abre. ROSA entra. O rosto abatido. Os olhos vermelhos. E um jornal amassado nas mãos. ZECA BATISTA imediatamente percebe que algo está errado.
ZECA BATISTA: — Rosa? O que aconteceu?
Sem responder… Ela caminha até a mesa de som.
E joga o jornal sobre ela. O impacto ecoa pelo estúdio.
ZECA BATISTA: — Mas o que é isso?
ROSA: — Olha. Só olha.
Confuso, ZECA BATISTA pega o jornal. Seus olhos percorrem a manchete. Então param na fotografia.
Ele empalidece. A imagem mostra NINA seminua ao seu lado enquanto ele dorme. O choque é imediato.
ZECA BATISTA: — Meu Deus do céu… Não pode ser…
ROSA tenta conter as lágrimas. Sem sucesso.
ROSA: — Por quê, Zeca? Por que você fez isso comigo?
ZECA BATISTA: — Eu não fiz! Eu juro que não fiz!
ROSA: — As fotos estão aí! Todo mundo em Tanhanhem viu! Como eu vou explicar isso? Me diz como, Zeca.
ZECA BATISTA: — Não tem explicação porque isso nunca aconteceu!É uma armação! Uma armadilha!
ROSA balança a cabeça. Ferida. Confusa.
ROSA: — As provas estão todas contra você… Como eu posso ignorar isso? Eu não sei no que acreditar.
ZECA BATISTA se aproxima. Segura suavemente as mãos dela. Ele e ROSA ficam apenas se olhando.
ZECA BATISTA: — Porque você me conhece.
Porque sabe quem eu sou. Eu jamais faria uma coisa dessas com você. Jamais. Acredita em mim, Rosa.
ROSA: — Mas a Nina estava lá! A fotografia mostra ela ao seu lado! Como você pode me explicar isso?
ZECA BATISTA: — E justamente por isso eu sei que tem algo errado. A Nina me odeia. Ela odeia você. Por que eu iria me envolver com uma mulher que passou os últimos meses tentando destruir nossa felicidade?
ROSA fica em silêncio. As palavras dele fazem sentido.
ROSA— Então por que ela faria isso? O que ela ganha?
ZECA BATISTA (pensativo): — Eu não sei exatamente.
Mas tem uma coisa que eu sinto. O dedo do Tenório Ferreira Lemos. Ele faria qualquer coisa para impedir que eu me candidate a prefeitura de Tanhanhem.
ROSA: — Você acha mesmo?
ZECA BATISTA: — Desde que eu comecei a enfrentar aquele homem no rádio, ele vem procurando uma forma de me derrubar. E agora isso aparece. Não pode ser coincidência. O Tenório não joga para perder, Rosa.
ROSA baixa os olhos. Uma lágrima escorre.
ROSA: — Eu quero acreditar em você. Quero muito.
ZECA BATISTA ergue delicadamente o rosto dela.
ZECA BATISTA: — Então acredita. Confia em mim.
Só isso. Porque eu estou dizendo a verdade.
Os olhos dos dois se encontram. Cheios de emoção.
Cheios de medo. Cheios de amor. Lentamente… ROSA se aproxima. Encosta sua testa na dele. Fecha os olhos.
ROSA: — Eu tenho medo do que vem pela frente.
ZECA BATISTA: — Eu também. Mas não vou enfrentar isso sem você. Eu amo você mais do que tudo, Rosa.
ROSA: — Promete?
ZECA BATISTA: — Prometo. Pela minha vida. Pelo que eu sinto por você. Nada vai conseguir separar a gente.
Os dois permanecem ali. Testa contra testa. Buscando força um no outro. Enquanto do lado de fora… Toda Tanhanhem comenta o escândalo estampado nos jornais. A câmera vai se afastando lentamente.
Mostrando o pequeno estúdio. E os dois unidos diante da tempestade que acaba de começar.
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CENA 8. INTERIOR — FAZENDA FERREIRA LEMOS — CASA GRANDE — ESCRITÓRIO DE TENÓRIO — MANHÃ
O escritório está mergulhado em silêncio. TENÓRIO está sentado atrás de sua mesa. Um copo de conhaque pela metade. O olhar frio. Calculista. Perigoso. Uma batida na porta. O vilão levanta o olhar bem gélido.
TENÓRIO: — Entre.
A porta se abre. PEDRO entra. Fecha a porta atrás de si.
Permanece de pé diante do coronel que o encara.
PEDRO: — Mandou me chamar, coronel?
TENÓRIO: — Mandei. Tenho um serviço importante pra você. E eu sei bem como você gosta de dinheiro fácil.
PEDRO arqueia uma sobrancelha.
PEDRO: — Tô ouvindo, coronel.
TENÓRIO se levanta lentamente. Vai até a janela. Observa as terras da Ferreira Lemos em sua imensidão.
TENÓRIO: — Eu e o delegado Augusto chegamos à conclusão de que o Jerônimo foi longe demais.
PEDRO: — Finalmente chegaram nessa conclusão?
TENÓRIO ignora a provocação.
TENÓRIO: — Ele virou um inimigo perigoso. Está fazendo perguntas demais. Descobrindo coisas demais.
E isso não pode continuar. Alguém precisa parar ele.
PEDRO (sério): — E o que o coronel quer fazer?
TENÓRIO se vira. Os olhos carregados de ódio.
TENÓRIO: — O mesmo que aconteceu com Xavier.
PEDRO: — Agora estamos falando a mesma língua.
TENÓRIO: — Jerônimo precisa morrer.
Silêncio. PEDRO absorve cada palavra. Sem demonstrar qualquer choque. Pelo contrário. Parece satisfeito.
PEDRO: — Posso dizer uma coisa?
TENÓRIO: — Fale.
PEDRO: — Vai ser um prazer.
TENÓRIO se aproxima. Ele e PEDRO se encaram.
TENÓRIO: — Mas não pode haver erros. Não pode haver testemunhas. Não pode haver suspeitas. Quando isso acontecer… Tem que parecer destino. Acidente.
Fatalidade. Qualquer coisa. Menos assassinato.
PEDRO (sorrindo): — Coronel… Eu sou especialista em fazer desgraça parecer obra do destino. Pode confiar.
TENÓRIO esboça um sorriso sombrio.
TENÓRIO: — É exatamente por isso que você está aqui.
PEDRO caminha pelo escritório. Pensativo.
PEDRO: — Tem só uma coisa. Linda Flor.
TENÓRIO fecha a expressão.
PEDRO: — Ela não desgruda do Jerônimo. Se ela resolver meter o nariz onde não deve… Pode complicar tudo. E o coronel sabe como isso pode ser perigoso. : TENÓRIO: — Linda Flor não será problema.
PEDRO: — Tem certeza? Porque eu conheço aquela teimosia. Ela pode atrapalhar. E estragar os seus planos.
TENÓRIO bate a mão sobre a mesa. O som ecoa pelo escritório. PEDRO pra o coronel com bastante raiva.
TENÓRIO: — Eu disse que ela não será problema!
PEDRO fica em silêncio. TENÓRIO respira fundo.
TENÓRIO: — Eu criei aquela menina. Conheço cada passo. Cada pensamento. Cada mania. E se ela tentar interferir… Eu mesmo resolvo. Você entendeu, Pedro?
PEDRO observa o coronel. Percebe o tom ameaçador.
PEDRO: — Então o coronel está disposto a tudo.
TENÓRIO: — A absolutamente tudo.
PEDRO: — Nesse caso… Pode considerar o serviço feito.
TENÓRIO apenas concorda com a cabeça. PEDRO caminha até a porta. Antes de sair… se volta para o coronel. TENÓRIO continua o encarando friamente.
PEDRO: — Jerônimo Gouveia nem imagina que a morte já está no encalço dele. E ele não tem escapatória.
PEDRO sai. A porta se fecha. O silêncio retorna ao escritório. TENÓRIO permanece sozinho. Imóvel.
O olhar perdido pela janela. Então um sorriso cruel surge lentamente em seus lábios.
TENÓRIO (sussurrando): — Você devia ter ficado longe da Ferreira Lemos, Jerônimo… Devia ter ido embora enquanto ainda podia. Mas você sempre foi teimoso.
O sorriso cresce. Mais sombrio. Mais perigoso.
TENÓRIO: — Agora é tarde demais.bVocê já é um homem morto. E o melhor é que você nem sabe ainda.
TENÓRIO pega o copo de conhaque. Bebe um gole.
Sem desviar o olhar da imensidão das terras.
TENÓRIO: — E não existe ninguém em Tanhanhem capaz de salvar você. Nem mesmo a Linda FLOR.
O vilão continua sorrindo. Enquanto a câmera se afasta lentamente. Um sorriso surge em seu rosto.
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CENA 5. INTERIOR — CASA DE MACÁRIO 3 SALUSTIANA — QUARTO DE MARIA DO CÉU — NOITE
A lua ilumina fracamente o pequeno quarto. MARIA DO CÉU está deitada na cama. Os olhos abertos. Fixos no teto. Mas sua mente está longe. Imagens de JERÔNIMO e LINDA FLOR se beijando passam por sua cabeça. A felicidade dos dois. O fracasso de seu plano. Seu semblante se contorce de ódio. Ela se senta bruscamente na cama. Respira fundo. Abre a gaveta do criado-mudo.
De lá, retira um jornal já amassado. Na capa, uma foto de LINDA FLOR sorrindo. A manchete fala sobre a futura escola para as crianças de TANHANHEM.
Maria do Céu encara a imagem.vOs olhos brilham de forma perturbadora. O ódio está a consumindo.
MARIA DO CÉU: — Olha só você… A santa de Tanhanhem. A queridinha de todo mundo.
Ela aperta o jornal entre os dedos. A raiva aumenta.
MARIA DO CÉU: — Tudo sempre foi você. Sempre.
Sem pensar duas vezes… MARIA DO CÉU começa a rasgar o jornal. Uma vez. Outra. E mais outra. Os pedaços caem pelo chão. A vilã começa a sorrir.
MARIA DO CÉU: — É assim que você devia ficar.
Destruída. Sem nada. Sem ninguém. Sua infeliz.
MARIA DO CÉU joga os pedaços rasgados sobre a cama.
Observa a fotografia despedaçada. Um sorriso cruel surge em seus lábios. Um sorriso bastante perturbador.
MARIA DO CÉU: — É isso que você merece, Linda Flor.
A felicidade nunca foi feita pra gente como você.
MARIA DO CÉU se levanta. Vai lentamente até a janela aberta. O vento da noite balança seus cabelos. Ela observa a lua iluminando TANHANHEM. Seu olhar se torna cada vez mais sombrio. O sorriso dela é vazio.
MARIA DO CÉU: — Você pode ter vencido uma batalha… Mas essa guerra ainda não acabou.
Ela fecha os olhos por um instante. Depois sorri.
MARIA DO CÉU: — Eu não vou desistir. Nunca.
Enquanto Jerônimo não for meu… Você não vai ter paz.
Nem por um único dia. Você não merece o amor dele.
A vilã segura o peitoril da janela. Com força.
MARIA DO CÉU: — Nem que eu precise arrancar você do meu caminho. Nem que eu precise acabar com tudo.
Ela começa a rir. Uma risada baixa. Fria. Sórdida.
MARIA DO CÉU: — Engraçado… Todo mundo diz que eu deixei de ser beata. Que eu abandonei a fé. Mas ninguém entende. Ninguém entende a verdade.
(pausa) Eu continuo cumprindo a vontade de Deus.
Porque Jerônimo nasceu para ser meu. E sempre será.
A risada aumenta. Mais alta. Mais doentia.
MARIA DO CÉU: — E quem ousar ficar entre nós...
Vai pagar caro. Muito caro. Principalmente Linda Flor.
A câmera fecha lentamente em seu rosto. Os olhos tomados pela obsessão. Pela inveja. Pela loucura.
Enquanto sua risada ecoa pela noite de TANHANHEM.
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CENA 6. INTERIOR — SOBRADO DE AURELIANO PRADO — SALA DE JANTAR — MANHÃ
Amanhece. A mesa do café da manhã está posta.
AURELIANO toma seu café. CONSTÂNCIA está sentada à mesa estranhamente calada. Algo raro. Muito raro.
AURELIANO observa a esposa com desconfiança. Nesse momento… BEATRIZ entra e se senta à mesa.
Imediatamente CONSTÂNCIA lança um olhar severo para a filha. O clima fica pesado. Tensão no ar.
CONSTÂNCIA: — Posso saber onde você estava ontem à noite? Do jeito que você saiu daqui devia ser importante.
BEATRIZ pega uma xícara. Antes mesmo que consiga responder CONSTÂNCIA continua bem esnobe….
CONSTÂNCIA: — Não precisa dizer nada. Eu já sei.
Foi atrás daquela gentinha biscoiteira. João Miguel.
BEATRIZ fecha a expressão.
BEATRIZ: — Mãe… Chega. Eu já estou cansada de ouvir a senhora falar do João Miguel dessa forma.
AURELIANO: — C-C-Con... Constância… V-v-você tá passando dos limites. O João Miguel é um bom rapaz.
CONSTÂNCIA revira os olhos.
CONSTÂNCIA: — Lá vem você também. Defendendo aquele feirante. O que eu disse não é nada demais.
BEATRIZ: — Não é questão de defender. É questão de respeito. A senhora foi racista com ele.
AURELIANO abaixa a cabeça. Constrangido. CONSTÂNCIA se levanta da mesa. Escandalizada.
CONSTÂNCIA: — Racista?! Eu?!
BEATRIZ: — Sim. A senhora. E já passou da hora de admitir isso. Você não é melhor que ninguém não.
CONSTÂNCIA: — Eu não acredito no que estou ouvindo! Vocês perderam completamente o juízo!
CONSTÂNCIA começa a andar pela sala. Gesticulando exageradamente. BEATRIZ e AURELIANO se olham.
CONSTÂNCIA: — Eu só estou tentando proteger minha filha! Nós somos uma família tradicional! Temos posição! Prestígio!bEstamos acima desse tipo de gente!
BEATRIZ se levanta imediatamente.
BEATRIZ: — Não! Ninguém está acima de ninguém!
Dinheiro não torna ninguém melhor que os outros!
CONSTÂNCIA: — Torna, sim!
BEATRIZ fica indignada.
BEATRIZ: — É exatamente por pensar assim que a senhora está ficando cada vez mais sozinha!
AURELIANO: — B-B-Beatriz… C-c-calma...
CONSTÂNCIA: — Não!bDeixa ela falar! Já que resolveu me enfrentar! Agora eu espero que você diga tudo.
BEATRIZ encara a mãe. Sem medo.
BEATRIZ: — O João Miguel é um homem honesto.
Trabalhador.bDigno. Tem muito mais caráter que muita gente rica dessa cidade. Inclusive da senhora.
CONSTÂNCIA: — Eu não vou admitir esse namoro!
Está me ouvindo?! Não vou! Se você insistir em ficar com aquele feirante… Eu tiro todos os seus privilégios!
AURELIANO arregala os olhos.
AURELIANO: — C-C-Con... Constância! P-p-pelo amor de Deus! O que é que você acha que está fazendo?
CONSTÂNCIA: — Eu estou falando sério! Sem mesada!
Sem vestidos! Sem festas! Sem nada! É isso que quer?
BEATRIZ dá uma risada incrédula.
BEATRIZ: — A senhora acha mesmo que pode comprar minha felicidade? Eu sou tão previsível assim, mãe?
CONSTÂNCIA permanece em silêncio.
BEATRIZ: — Pois eu tenho uma notícia. Eu não preciso do dinheiro de vocês. Nem dos vestidos. Nem dos privilégios. O que eu preciso… É viver minha vida.
Os olhos de CONSTÂNCIA se arregalam.
BEATRIZ: — E não vai ser uma dondoca preconceituosa que vai decidir quem eu posso amar. Entendeu?
CONSTÂNCIA: — O quê?! Repete se tiver coragem.
BEATRIZ: — Foi exatamente o que a senhora ouviu.
BEATRIZ dá as costas. Sai da sala. BATENDO A PORTA COM FORÇA. O barulho ecoa pelo sobrado. Silêncio. CONSTÂNCIA está vermelha de raiva. AURELIANO observa a porta fechada. E sem perceber… Esboça um pequeno sorriso. Um sorriso de orgulho. CONSTÂNCIA vê. E fica ainda mais furiosa.
CONSTÂNCIA: — Você está sorrindo?!
AURELIANO: — N-N-Não… Eu…
CONSTÂNCIA pega um copo cheio de suco.
AURELIANO: —;C-Con... Constância…;N-N-Não faz isso… Eu sei que você está chateada. Não faz isso.
Tarde demais. Ela joga todo o suco sobre a cabeça do marido. AURELIANO fica completamente molhado.
Paralisado. Sem reação. CONSTÂNCIA o encara.
CONSTÂNCIA: — Pois fique sabendo… Minha filha não vai namorar nenhuma gentinha biscoiteira! NENHUMA!
CONSTÂNCIA sai pisando duro. Deixando AURELIANO sozinho. Molhado. Atônito. Ele suspira. Passa a mão no rosto. E murmura para si mesmo:
AURELIANO: — S-S-Santo Deus… Q-Que mulher…
AURELIANO sorri da situação constrangedora. Ao mesmo tempo ele sente enorme orgulho de sua filha.
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